22 maio 2002
Jornalista: Patrícia de Martini
O Editor da 359, Nestor Tipa Júnior, se tornou um incentivador do Cine8
e muitas outras entrevistas nós demos para este veículo e para a Revista Trilha.
Mais tarde me tornei colunista da 359online e da Revista Trilha;
Uma das ilustrações da matéria foi esta foto de cena do meu curta 'Suco de Tomate', que foi muiito comentado e exibido na época em festivais, tvs, saite do Terra, Brasil, exterior :)
Abaixo a entrevista :)

CULTURA
Cinema Desconstrução
Cine 8: cinema independente
> Para início de conversa... eu sugiro que tu faça uma apresentação tua. Aquelas coisas básicas, de praxe, que creio até tu não gostaria que eu conduzisse...
> Uma coisa tipo "A bia por ela mesma; um auto-retrato".
RESPOSTA: praxe, rotina, fácil ... Humm, acho que meus trabalhos são auto-retratos, e podem ser lidos por quem se interessar. Não acho instigantes as coisas de praxe.
> * Tu mesma insiste em definir que faz um chamado "cinema desconstrução". O que exatamente seria isso?
Antes de mais nada, devemos ser mais polidos ao nos referirmos ao Cinema Desconstrução, devemos fazer reverências, nunca esquecendo o respeito que as manifestações históricas merecem, e, de preferência escrever os grandes nomes semrpe em maiúsculas.
Mas, enfim, é exatamente isso. Cinema Desconstrução não é cinema de praxe. Pra saber mais acho que as pessoas devem ir atrás, tirar a bunda da cadeira, conhecer algo além daquilo que está formatado pela tv e algo além daquilo que os professores mostram na escola como "cinema gaúcho e brasileiro".
Nossos filmes não são motivo de estudo, os nossos colegas professores
nos escondem das escolas e oficinas por acharem que só os carinhas do "bem", só os da "turma" fazem cinema relevante e, claro, por considerarem nosso cinema equívocado e sem uma forma correta.
É sintomático. Essa é a grande provocação do Cinema Desconstrução ao marasmo que estamos vivendo.
O Cinema Desconstrução é uma força incontrolável, é o jeito mais fora de moda e o jeito mais moderno de fazer cinema.
Nos interessamos mais pelo ator que pelo quadro, mais pelo símbolo que pelo formato certo pra agradar teóricos - sempre os mesmos - que vão decidir quem são os cineastas - sempre os mesmos - ícones da nossa geração.
Não somos agradáveis e cautelosos, falamos de política, escrevemos, fazemos trilhas, trabalhamos sempre com muita gente diferente. Sem essa de turminha, porque sempre os mesmos deixa o ar viciado demais, é provinciano!
Cinema Desconstrução é mais que estética, é revolução,
é estar na lista negra de muita gente poderosa.
É saber que muita gente te odeia, que muitos te copiam, que muitos te admiram e outros te invejam, que muitas portas vão se fechar pra ti e mesmo assim seguir fazendo aquilo no qual tu acreditas, consciente de que nunca estará despercebido o teu trabalho, mas que os teus contemporâneos fingirão que sim, que nada está acontecendo, que não tá rolando nada além dos filminhos para tv.
>
> * Em uma das tuas colunas da 359, tu declarou que o cinema brasileiro não existe, que, na verdade, nossos filmes são americanos, que nos falta identidade. Como então se busca essa identidade?
Não fazendo cinema de praxe. Mas não é só isso
porque ser apenas honesto e criativo não adianta quando tem grana na jogada.
Tem que pensar politicamente também. Lutando pela mudança dos critérios, duvidando do panorama que as tvs comerciais e os queridinhos da mídia nos mostram como a verdade do cinema nacional.
Não acreditando em quem não tem conceito e pensa cinema apenas como evento e frases feitas.
Duvidando de quem se vende por migalhas.
Duvidando quando dizem que somos "todos" nós do cinema brasileiro contra "eles" do cinema americano.
Porque o Brasil nunca vai vencer a hegemonia cultural se não sufocar a hegemonia interna.
E o RS, então, é o pior lugar de todos quando o assunto é monopólio porque todo mundo baixa as calças pro monopólio e a gente que não quer fazer isso entra pra todas as listas negras, perdemos até amigos que não querem ser vistos com a gente, somos bruxas do mal.
Olha, temos que ter coragem e frieza de guerrilheiro pra não virar robô, por que essa é a ordem.
Temos que lutar para derrubar as fórmulas desacreditando dos professores que querem ensinar cinema mas sequer mostram um cinema de personalidade quando é sua vez de gritar ação.
Temos que questionar toda a escola de cinema que não incentive o livre criador, toda a oficina de cinema que traga apenas decupagem americana de roteiros para tirar uns trocados.
Devemos desacreditar dos concursos até que possamos dar pitacos no seu formato, até que deixem de dividir a grana do cinema entre dois ou três nomezinhos comportados e famosos e dois ou três lobistas. Devemos duvidar quando nos dizem que prêmios são sinonimos de um trabalho que contribui com a história
pois a história tem nos contado que prêmio é sinonimo de conivência, a história
nos mostras que os "bacanas" são sempre os que estavam no esquema pra se dar bem e os revolucionários sempre são reconhecidos só quando a página já foi virada.
Devemos bater pesado na hegemonia, no corporativismo, nas panelas. Devemos ter espírito crítico e duvidar, duvidar muito quando num mundo tão difícil como o do audiovisual alguns levam tudo muito fácil e rápido e só falam em números e valores e sentam em mesas de debate pra responder perguntas de fãs, mas nunca falam de cinema como arte e instrumento de inovação, nunca estão apaixonados.
Devemos pensar por nós mesmos e parar de acreditar que um filme é bom só porque a maioria tá dizendo que é
ou só porque o cara aparece no programinha bossa da tv comercial.
Temos que ler, pensar, sonhar, assistir filmes que a fofoca do jornal nunca nos indicaria.
Precisamos descobrir os segredos escondidos no sótão.
Devemos nos sentir responsáveis por essa merda de funil que é o audiovisual brasileiro.
Temos que ter o super poder de olhar nos olhos de qualquer um que se diz cineasta e ler a verdade, sem aquelas palavrinhas descartáveis de "viva o cinema brasileiro" que eles repetem boca a fora.
Temos que olhar nos olhos do "cineasta" ou qualquer outro que queira formar opinião e ler a verdade sobre "personalidade". Temos que estudar pra não acreditar em qualquer baboseira que cineastinhas comportados inventam.
Devemos não ter medo e encarar os olhos do cineasta, seja ele eu, tu os os outros.
Teus olhos nos meus olhos eu nos teus.
Mas tu sabe que isso
não vale só pro cinema, vale pra tudo. O mundo parou?
> * Por que os novos cineastas anseiam tanto por se desvincularem de qualquer escola preexistente de cinema? É a tal busca pela identidade?
Não concordo que os novos cineastas querem se desvincular das escolas preexistentes.
A realidade da nova geração passa pelo medo de ser diferente, de ousar, de errar, de
ficar de fora de um festival de gramado ou da rbs tv. A maioria sequer percebe que os critérios para dividir os incentivos são viciados, são enferrujados, são ultrapassados. A maior parte dos novos cineastas apenas se adapta, ninguém quer se responsabilizar, correr riscos.
Se vc ligar a tv no tal curtas rbs ou se vc visitar esses festivais que só falam em números e prêmios como se fossem propagandas de cartelas de sorteios, vc vai ver tresentas referências à língua das novelas, dos comercias, dos filmes que a gente adivinha do começo ao fim e que não trazem diálogo algum com o público, menos ainda entre os próprios cineastas e estudiosos.
A maioria está dentro do esquemão e os piores são aqueles que se disfarçam na pele de revolucionários
mas são covardes.
Não que eu desrespeite o trabalho dos que NÃO querem ousar, inovar, descobrir sua própria língua.
Respeito porque o mundo tá um marasmo mesmo, todos acomodados. São características do nosso tempo.
Eu só acho que urge abrir espaço pra os que estão fora de moda por quererem movimento.
Claro que tem os pesquisadores de linguagem. O próprio Fórum do Filme Livre, o próprio FLô stão aí pra provar isso, pra abrir discussão, pra abrir espaço, pra realizar coletivamente,
pra revolucionar, pra falar o que a galera do cinema não quer ouvir.
Mas a esmagadora maioria é de garotos bonzinhos com penteados moderninhos, diretores de filmes publicitários que viram cineastas nas horas vagas porque a grana vai pra quem aplica melhor a fórmula.
Essa é a realidade.
Não é verdade que a maioria dos novos cineastas é composta por provocadores livres.
>
> * Tu trabalha muito em prol do cinema brasileiro e pela busca de sua identidade. Qual são os projetos que estão sendo desenvolvidos?
Temos dado, há meses, nossos dias e noites, integralmente, ao FLô, Festival do Livre OLhar,
que é uma revolução no formato
dos festivais brasileiros por dezenas de grandes e belos motivos. O principal é a democracia. O Flô é realizado por cabeças experimentais de todo o Brasil e estamos trabalhando de forma idealista e política. Optamos pelo risco.
Então nesta primeira edição fomos atrás da legitimidade e estamos trabalhando somente com parcerias culturais.
Vender o FLô no "mercado" é algo que vamos pensar com cautela após a primeira experiência pois não podemos desrespeitar o conceito.
É um festival idealista que não se vende por nada desse mundo.
E é tão idealista que até para conseguir o apoio da prefeitura de Porto Alegre estamos tendo que travar uma luta que já se estende há quase um ano. Existe uma grande resistência às nossas idéias, até porque não somos filhos de pessoas importantes no meio cultural e político de Porto Alegre, o que conta muito. Alguns de nós não são da capital ou não são sequer gaúchos.
É um trabalho cosmopolita, eu diria, então assusta um pouco uma cidade de valores cristalizados como Porto Alegre.
Mas não é só isso, nós estamos mexendo com muitos vespeiros. A luta segue e já estamos até na moda, já tem gente que nunca fez um filme na vida ou gente que só faz filmes tipo rbs que aparece ultimamente na mídia repetindo palavras que a gente diz há anos e levando grana para eventos caros clonados dos nossos. É tri engraçado, meio caricato e a gente
percebe que estamos começando a mexer com o corporativismo do cinema. No que isso vai dar, não sabemos,
mas existe uma guerra cultural rolando e nós não vamos desistir nunca porque temos direitos assim como os fazedores do filme e do festival certo.Nós passamos a conquistar reconhecimento nacional a duras penas. Muita gente que fez e faz a história do cinema brasileiro nos respeita, esse aval tem sido importante e inspirador.
E temos muitos projetos de produção pela frente. O Núcleo Cine 8 vem passando desde meados de 2002 por profundas modificações.
Algumas pessoas estão desembarcando em Porto Alegre pra trabalhar com a gente, estamos estudando uma ação cooperativada com outras produtoras, talvez através do Fórum Livre, não sei.
Temos muitos filmes no aguardo de produção e temos trabalhos sendo exibidos aqui e ali.
E temos nos dedicado com carinho à nossa associação, o Fórum do Filme Livre. Durante o FLO, acontecerá um encontro do Fórum Livre que vai definir muitas coisas vitais para a associação, inclusive a nossa campanha de adesão.
>
> * Na ocasião do lançamento do curta "Suco de Tomate", tu disse que "brinca com o erro". Como isso se dá?
Não fazendo o cinema de praxe (gostei de abusar da tua expressão!) a gente corre mais riscos, irrita umas pessoinhas tolas, erra, sangra, sei lá. É por aí.
>
> * Falando sobre "Suco de Tomate", o filme tem cenas de sexo, e algumas delas são substituídas por animações. Essas animações funcionaram como algum tipo de censura?
o Sandro Ka tem um traço lindo. Na verdade a gente ia usar o meu traço, que é mais tosco ou
ou o do Marden que é mais noir. Mas como a gente tava curtindo usar cores fortes no filme, acabamos por optar pelo
traço do Sandrinho.
Ele é um puta artista e temos orgulho de ter lançado ele, como temos feito "diariamente", lançado nomes bacanas que vêm arejar esse vício das panelas. Pá nelas. hehhe.
o que é isso de censura ??? poderia ser mais clara?
>
u fala que a tua forma de trabalhar com o cinema luta contra o machismo ostensivo desse meio no Rio Grande do Sul. Esse "gauchismo" não te desanima às vezes?
"Analogia da forma" seria uma expressão redundante eu acho, né?
Mas é isso que eu vou usar pra te responder melhor:
Sabe quando tu entra no banho e não lava o cabelo?
Pois é, eu não consigo fazer isso. Eu não faço chapinha, não pinto o cabelo, não penteio mesmo. Mas tenho a vantagem de ter lindos cabelos soltos.
Tipo, tem gente que consegue entrar no chuveiro e desviar dos pingos pra não estragar o penteado, eu já nasci
despenteada.
Aqui a gente se molha, vai fundo.
Com o gauchismo eu fui ficando mais assim ainda. Porque essas pessoas que metem pau na gente, que decoram fórmulas, que se dizem críticas e nos cumprimentam com ar de "que cês querem aqui no meio das pessoas bacanas",
essas pessoas são só uma casquinha, se elas tomarem o banho todo, o pentedado desmorona.
Então a gente faz o que quer e o máximo que eles podem fazer é ficar esperneando e usando forças políticas, parentescos, esquemas, combinações, turminhas chiques. Mas eles não podem mostrar suas almas porque o penteado vai estragar.
Só que quando tu é sem tempero, tu não é fiel nem a ti mesmo porque tu não tem um TU dentro de ti, quando tu tem interesses, vaidade, conformismo, parentes políticos, amigos colunistas e só, daí um dia tu acaba te mostrando.
Aquela energia do autor, aquele medo do homem vivo, a dor daquele que cria, a vulnerabilidade daquele que arrisca. Isso tu não tem o prazer de sentir quando tu é apenas agradável e certinho.
Por isso, a gente até se anima quando leva porrada. Tipo revolução.
Dá uma emoção sabe! Se todo mundo soubesse como é bom confrontar os bacanas do main stream. Pentelhar eles,
ser livre. O cinema gaúcho é cheio de artimanhas poilíticas, palavras proibidas, olharzinhos de canto. A gente não, a gente
não compõe com ninguém, só com as nossas idéias.
Não fazemos o roteiro certo pra ganhar preminho, não fazemos o casamento certo, a amizade certa, a sociedade secreta certa. A gente cria, se vira pra realizar e botar
na roda pra os "caras" do cinema virem com seus filmes-novela
e suas caras de cu, criticando a gente, ironizando nosso trabalho e dizendo autoritários Nãos.
Teve um tempo que eu sofria diferente o preconceito. E o preconceito que a gente sofre não é só o machismo. É a nossa estética, a forma livre como a gente opina, bebe, trabalha, não entra em esquemas, não tolera panelas e como exigimos nossa parte por que é nosso direito.
Tipo, um dos maiores problemas que temos hoje é a falta de apoio ao FLô dentro da nossa cidade, nem abaixo assinado, nem cartas de apoio do país inteiro resolveram.
A prefeitura de Porto Alegre vai ter que apoiar seja hoje, seja ano que vem nosso projeto pois os FLô acontecesse em cinco salas do estado e tres delas são na capital e somos apoiados por grandes entidades. Eles não podem seguir virando a cara pra gente como se fossemos punks loucos alegando que concorremos com o festival do genro do prefeito. A discussão vai seguir até ter uma solução.
Quer dizer, a gente entra de cabeça. O que importa é sermos honesta com nosso trabalho, sem precisar agradar ninguém ou puxar o saco ou usar sobrenome de aristocrata, que é uma das coisas que mais funciona no gauchismo.
VIVA A REVOLUÇÃO. Quem não gostou que siga dando a bunda. Eu não dou, eu quero o que é nosso.
Também quero a grana que vai pro cinema gaúcho bonzinho, também quero usar as salas de cinema pra mostrar nossos filmes, também quero mostrar meus filmes na tv, quero TUDO. Eles dizem não, eu sigo enchendo o saco, sistematicamente.
É muito tri tomar banho de chuva em pleno temporal porque
que a gente até corre o risco de levar um raio na cabeça, mas somos tão certos dos direitos que temos e de que tem algo de podre na política de incentivos, que ao invés de morrer, acho que os raios estão nos energizando, tipo a fenix negra, a ororo, nós mesmos, gente que tem asas, sem hemorróidas de tanto dar a bunda pro esquema.
> * Como é sobreviver de cinema no Brasil?
Acho que ninguém vive de cinema no Brasil, mas brevemente os caras que estão no esquema e que fazem cinema de praxe (adorei messsmo essa do praxe!) vão começar a
dizer que vivem de cinema, porque rola uma grana bacana pra quem é "bonzinho".
Só que estarão vivendo mesmo é de negociatas. Cinema é outra história.
>
> * Tu diz que não consegue fazer "gracinhas" nos teus filmes, que as pessoas, muitas vezes, olham de "cara feia" para a seriedade dos teus filmes. Mas "Suco de Tomate" não é - por si só - um deboche feminino?
É.
> * Os críticos consideraram "Suco de Tomate" um filme superficial. Mas tu disse que foi essa mesma a tua intenção. Como um filme que expõe o olhar feminino sobre o poder pode ser bom e superficial ao mesmo tempo?
Que bom se a gente tivesse críticos de cinema e melhor ainda se tivessemos críticos que falassem de curtinhas como o Suco. 'magina, quem sou eu. Acho que o único cara de respeito que falou do Suco foi o Carlão Reinchembah.
De início eu fiquei triste com a opinião dele, achei que ele foi machista. Mas meses depois a gente falou longamente no festival de gramado
e entendi melhor algumas coisas. Sei lá, criticas embasadas, não personalistas, de gente inteligente, fazem uma falta danada pro trabalho da gente crescer.
Mas o suco de tomate não tem nada de superficial. Ele tem símbolos como todos os meus filmes tem, muito importantes. E tem erros que eu quis errar. Talvez alguns que eu não quis e ainda não vi. Com o tempo vamos analisando melhor os nossos próprios trabalhos. Comecei há poucos anos e, por enquanto, é a direção de atores o que mais me dá prazer e medo, a parte que mais mexe comigo. O Suco foi exibido pelo mundo e tive muito retorno, muita gente gosta muito da trilha, muitos falam bem da minha interpretação, muitos falam da direção. Muitos falam do trabalho do Sandrinho. Como um todo é difícil que falem pois acho que eu deixei bem fragmentado o filme, mas ainda não sei como explicar isso.
A conversa do pai pra mim é o ponto alto do que eu penso de cinema gaúcho. A metalinguagem não é obvia,
quem não saca curtametragem nem entende.
As personagens sim são superficiais, talvez isso tenha te confundido. Mas é que meu trabalho com atores é sempre tão intenso, tão bom, tão preocupado que as pessoas confundem o filme com as personagens.
É um grande trabalho, só isso. Gostaria de falar muito mais dele, mas para isso vc teria que assisti-lo de verdade, daí a gente voltaria a falar.
>
> * Tu disse também que nossos cineastas, muitas vezes, agem como publicitários. Mas não são? Quero dizer, na falta de escolas de cinema, a maioria busca o curso de Publicidade e Propaganda...
O autor não precisa de academia, ele nasce criativo e livre. A academia acaba sendo necessária pra muitos de nós em alguns momentos que nós mesmos precisamos saber perceber. Mas ela é apenas a forma, o conteúdo está aqui, dentro, em torno, antenas, vísceras.
Devemos ser leitores, críticos, auto-críticos, apreciadores de arte e não-arte, revolucionários, amantes.
Isso não tem nada a ver com escola a não ser que vc precise de um maestro para tanta energia.
Mas cultuta é outra cousa.
E publicitários são publicitários, conheço uns simplesmente geniais, mas o que isso tem a ver com o cinema???
>
> * Quais são as tuas principais influências? Os diretores que mais aprecia...
Acho que tenho influências do Machado de Assis, do meu avô caudilho e da minha irmã que ouvia bandas progressivas e agora se isolou no interior pintando quadros. Também tenho influências do Pictures of You, de tres mulheres bruxas que correm na floresta,uma gorda meio velha, uma bem mais velha só que magra e uma bem jovem e bonita que anda pelada e toma vinho tinto. Tenho influência da minha avó que enterrou armas e
andou com meu pai no colo, descalça, pisando gafanhotos.
Tenho influencia de grandes plantações de crisântemos e eu deitada no meio, na terra fofa lendo as nuvens. Tenho umas influencias de gringos pisando uvas, de
uma gruta de pedra com uma santa que pisa numa cobra e uma menina que passa as tardes de verão ali sozinha lendo uns livros, ouvindo as cigarras e escrevendo num diário pra rasgar ele depois.
Tenho influências de grandes figueiras, um lobisomen, um soldado que se enforcou, barulho de riacho, outono, aulas de francês, cheiro de livro guardado no porão, uma provision iluminada por lampiões numa cidadezinha do Uruguai, manhãs tão frias de sábado com queijo tofu. do único homem que morreria por mim e eu mandei ele embora, da oxum, iemanja, tara vermelha. calendário maia. coisas que ainda não sei.
Ih! São tantas as influências de uma pessoa.
>
> * Tu não é apenas diretora. Tu é "multi", como já disse em outras entrevistas. Conte um pouco dessas tuas funções.
Não é difícil conhecer meu trabalho. Assino muitos textos, muitas tridimensionais, muitos vídeos, músicas.
Acho que quem quiser saber encontra porque sou bem famosinha até.
>
> * E quais são as previsões do ano de 2003? Algum filme em vista?
Além do FLô, que é a revolução em pessoa, estaremos durante o segundo semestre trabalhando umas oficinas em vilas
e estaremos filmando. Estamos com um longa parado, organizando a captação. E quero começar meu próximo 35 mm, Cale-se de Anis ainda em 2003. Já fechei quase todo o elenco, vou atuar de novo porque acho que estou começando a me olhar no espelho e perder o medo de ser atriz. E estou naquela fase que no meu caso demora muito, as personagens, os atores, a vida e as entranhas do filme, que ninguém se aprofunda pra entender e depois vêm dizer que o filme é superficial. Onde estão os críticos do cinema brasileiro?
E estou preparando um estudo que está me apaixonando sobre direção de atores no cinema. O estudo está na fase de metodologia e pretendo inserir uma pesquisa sobre um filme nacional que eu admiro demais justo por ser filme para ator.
Não posso falar muito mais pois seria irresponsável falar sobre aquilo que está ainda no esboço, mas é um projeto audacioso e vai levar um bom tempo pra concluir.
>
> Ah, tu poderia dar o email de algum amigo teu? Eu gostaria de falar com alguém sobre como é conviver com a Bia Werther, só para introduzir a entrevista. Pode ser?
viniciustavares@hotmail.com
ninafabico@uol.com.br
angres@terra.com.br
>
> Grata desde já!
>
> ***************
> Priscíla De Martini
> (54)91261636
> (51)33126313

