domingo, 28 de dezembro de 2008

Entrevista 359 online

Entrevista para a 359 on line
22 maio 2002
Jornalista: Patrícia de Martini

O Editor da 359, Nestor Tipa Júnior, se tornou um incentivador do Cine8
e muitas outras entrevistas nós demos para este veículo e para a Revista Trilha.
Mais tarde me tornei colunista da 359online e da Revista Trilha;

Uma das ilustrações da matéria foi esta foto de cena do meu curta 'Suco de Tomate', que foi muiito comentado e exibido na época em festivais, tvs, saite do Terra, Brasil, exterior :)

Abaixo a entrevista :)


CULTURA
Cinema Desconstrução
Cine 8: cinema independente

> Para início de conversa... eu sugiro que tu faça uma apresentação tua. Aquelas coisas básicas, de praxe, que creio até tu não gostaria que eu conduzisse...
> Uma coisa tipo "A bia por ela mesma; um auto-retrato".

RESPOSTA: praxe, rotina, fácil ... Humm, acho que meus trabalhos são auto-retratos, e podem ser lidos por quem se interessar. Não acho instigantes as coisas de praxe.

> * Tu mesma insiste em definir que faz um chamado "cinema desconstrução". O que exatamente seria isso?

Antes de mais nada, devemos ser mais polidos ao nos referirmos ao Cinema Desconstrução, devemos fazer reverências, nunca esquecendo o respeito que as manifestações históricas merecem, e, de preferência escrever os grandes nomes semrpe em maiúsculas.
Mas, enfim, é exatamente isso. Cinema Desconstrução não é cinema de praxe. Pra saber mais acho que as pessoas devem ir atrás, tirar a bunda da cadeira, conhecer algo além daquilo que está formatado pela tv e algo além daquilo que os professores mostram na escola como "cinema gaúcho e brasileiro".
Nossos filmes não são motivo de estudo, os nossos colegas professores
nos escondem das escolas e oficinas por acharem que só os carinhas do "bem", só os da "turma" fazem cinema relevante e, claro, por considerarem nosso cinema equívocado e sem uma forma correta.
É sintomático. Essa é a grande provocação do Cinema Desconstrução ao marasmo que estamos vivendo.

O Cinema Desconstrução é uma força incontrolável, é o jeito mais fora de moda e o jeito mais moderno de fazer cinema.
Nos interessamos mais pelo ator que pelo quadro, mais pelo símbolo que pelo formato certo pra agradar teóricos - sempre os mesmos - que vão decidir quem são os cineastas - sempre os mesmos - ícones da nossa geração.
Não somos agradáveis e cautelosos, falamos de política, escrevemos, fazemos trilhas, trabalhamos sempre com muita gente diferente. Sem essa de turminha, porque sempre os mesmos deixa o ar viciado demais, é provinciano!
Cinema Desconstrução é mais que estética, é revolução,
é estar na lista negra de muita gente poderosa.
É saber que muita gente te odeia, que muitos te copiam, que muitos te admiram e outros te invejam, que muitas portas vão se fechar pra ti e mesmo assim seguir fazendo aquilo no qual tu acreditas, consciente de que nunca estará despercebido o teu trabalho, mas que os teus contemporâneos fingirão que sim, que nada está acontecendo, que não tá rolando nada além dos filminhos para tv.

>
> * Em uma das tuas colunas da 359, tu declarou que o cinema brasileiro não existe, que, na verdade, nossos filmes são americanos, que nos falta identidade. Como então se busca essa identidade?

Não fazendo cinema de praxe. Mas não é só isso
porque ser apenas honesto e criativo não adianta quando tem grana na jogada.
Tem que pensar politicamente também. Lutando pela mudança dos critérios, duvidando do panorama que as tvs comerciais e os queridinhos da mídia nos mostram como a verdade do cinema nacional.
Não acreditando em quem não tem conceito e pensa cinema apenas como evento e frases feitas.
Duvidando de quem se vende por migalhas.
Duvidando quando dizem que somos "todos" nós do cinema brasileiro contra "eles" do cinema americano.
Porque o Brasil nunca vai vencer a hegemonia cultural se não sufocar a hegemonia interna.
E o RS, então, é o pior lugar de todos quando o assunto é monopólio porque todo mundo baixa as calças pro monopólio e a gente que não quer fazer isso entra pra todas as listas negras, perdemos até amigos que não querem ser vistos com a gente, somos bruxas do mal.
Olha, temos que ter coragem e frieza de guerrilheiro pra não virar robô, por que essa é a ordem.
Temos que lutar para derrubar as fórmulas desacreditando dos professores que querem ensinar cinema mas sequer mostram um cinema de personalidade quando é sua vez de gritar ação.
Temos que questionar toda a escola de cinema que não incentive o livre criador, toda a oficina de cinema que traga apenas decupagem americana de roteiros para tirar uns trocados.
Devemos desacreditar dos concursos até que possamos dar pitacos no seu formato, até que deixem de dividir a grana do cinema entre dois ou três nomezinhos comportados e famosos e dois ou três lobistas. Devemos duvidar quando nos dizem que prêmios são sinonimos de um trabalho que contribui com a história
pois a história tem nos contado que prêmio é sinonimo de conivência, a história
nos mostras que os "bacanas" são sempre os que estavam no esquema pra se dar bem e os revolucionários sempre são reconhecidos só quando a página já foi virada.
Devemos bater pesado na hegemonia, no corporativismo, nas panelas. Devemos ter espírito crítico e duvidar, duvidar muito quando num mundo tão difícil como o do audiovisual alguns levam tudo muito fácil e rápido e só falam em números e valores e sentam em mesas de debate pra responder perguntas de fãs, mas nunca falam de cinema como arte e instrumento de inovação, nunca estão apaixonados.
Devemos pensar por nós mesmos e parar de acreditar que um filme é bom só porque a maioria tá dizendo que é
ou só porque o cara aparece no programinha bossa da tv comercial.
Temos que ler, pensar, sonhar, assistir filmes que a fofoca do jornal nunca nos indicaria.
Precisamos descobrir os segredos escondidos no sótão.
Devemos nos sentir responsáveis por essa merda de funil que é o audiovisual brasileiro.
Temos que ter o super poder de olhar nos olhos de qualquer um que se diz cineasta e ler a verdade, sem aquelas palavrinhas descartáveis de "viva o cinema brasileiro" que eles repetem boca a fora.
Temos que olhar nos olhos do "cineasta" ou qualquer outro que queira formar opinião e ler a verdade sobre "personalidade". Temos que estudar pra não acreditar em qualquer baboseira que cineastinhas comportados inventam.
Devemos não ter medo e encarar os olhos do cineasta, seja ele eu, tu os os outros.
Teus olhos nos meus olhos eu nos teus.
Mas tu sabe que isso
não vale só pro cinema, vale pra tudo. O mundo parou?


> * Por que os novos cineastas anseiam tanto por se desvincularem de qualquer escola preexistente de cinema? É a tal busca pela identidade?

Não concordo que os novos cineastas querem se desvincular das escolas preexistentes.
A realidade da nova geração passa pelo medo de ser diferente, de ousar, de errar, de
ficar de fora de um festival de gramado ou da rbs tv. A maioria sequer percebe que os critérios para dividir os incentivos são viciados, são enferrujados, são ultrapassados. A maior parte dos novos cineastas apenas se adapta, ninguém quer se responsabilizar, correr riscos.

Se vc ligar a tv no tal curtas rbs ou se vc visitar esses festivais que só falam em números e prêmios como se fossem propagandas de cartelas de sorteios, vc vai ver tresentas referências à língua das novelas, dos comercias, dos filmes que a gente adivinha do começo ao fim e que não trazem diálogo algum com o público, menos ainda entre os próprios cineastas e estudiosos.

A maioria está dentro do esquemão e os piores são aqueles que se disfarçam na pele de revolucionários
mas são covardes.
Não que eu desrespeite o trabalho dos que NÃO querem ousar, inovar, descobrir sua própria língua.
Respeito porque o mundo tá um marasmo mesmo, todos acomodados. São características do nosso tempo.
Eu só acho que urge abrir espaço pra os que estão fora de moda por quererem movimento.

Claro que tem os pesquisadores de linguagem. O próprio Fórum do Filme Livre, o próprio FLô stão aí pra provar isso, pra abrir discussão, pra abrir espaço, pra realizar coletivamente,
pra revolucionar, pra falar o que a galera do cinema não quer ouvir.
Mas a esmagadora maioria é de garotos bonzinhos com penteados moderninhos, diretores de filmes publicitários que viram cineastas nas horas vagas porque a grana vai pra quem aplica melhor a fórmula.
Essa é a realidade.
Não é verdade que a maioria dos novos cineastas é composta por provocadores livres.

>
> * Tu trabalha muito em prol do cinema brasileiro e pela busca de sua identidade. Qual são os projetos que estão sendo desenvolvidos?

Temos dado, há meses, nossos dias e noites, integralmente, ao FLô, Festival do Livre OLhar,
que é uma revolução no formato
dos festivais brasileiros por dezenas de grandes e belos motivos. O principal é a democracia. O Flô é realizado por cabeças experimentais de todo o Brasil e estamos trabalhando de forma idealista e política. Optamos pelo risco.
Então nesta primeira edição fomos atrás da legitimidade e estamos trabalhando somente com parcerias culturais.
Vender o FLô no "mercado" é algo que vamos pensar com cautela após a primeira experiência pois não podemos desrespeitar o conceito.
É um festival idealista que não se vende por nada desse mundo.
E é tão idealista que até para conseguir o apoio da prefeitura de Porto Alegre estamos tendo que travar uma luta que já se estende há quase um ano. Existe uma grande resistência às nossas idéias, até porque não somos filhos de pessoas importantes no meio cultural e político de Porto Alegre, o que conta muito. Alguns de nós não são da capital ou não são sequer gaúchos.
É um trabalho cosmopolita, eu diria, então assusta um pouco uma cidade de valores cristalizados como Porto Alegre.
Mas não é só isso, nós estamos mexendo com muitos vespeiros. A luta segue e já estamos até na moda, já tem gente que nunca fez um filme na vida ou gente que só faz filmes tipo rbs que aparece ultimamente na mídia repetindo palavras que a gente diz há anos e levando grana para eventos caros clonados dos nossos. É tri engraçado, meio caricato e a gente
percebe que estamos começando a mexer com o corporativismo do cinema. No que isso vai dar, não sabemos,
mas existe uma guerra cultural rolando e nós não vamos desistir nunca porque temos direitos assim como os fazedores do filme e do festival certo.Nós passamos a conquistar reconhecimento nacional a duras penas. Muita gente que fez e faz a história do cinema brasileiro nos respeita, esse aval tem sido importante e inspirador.

E temos muitos projetos de produção pela frente. O Núcleo Cine 8 vem passando desde meados de 2002 por profundas modificações.
Algumas pessoas estão desembarcando em Porto Alegre pra trabalhar com a gente, estamos estudando uma ação cooperativada com outras produtoras, talvez através do Fórum Livre, não sei.
Temos muitos filmes no aguardo de produção e temos trabalhos sendo exibidos aqui e ali.

E temos nos dedicado com carinho à nossa associação, o Fórum do Filme Livre. Durante o FLO, acontecerá um encontro do Fórum Livre que vai definir muitas coisas vitais para a associação, inclusive a nossa campanha de adesão.


>
> * Na ocasião do lançamento do curta "Suco de Tomate", tu disse que "brinca com o erro". Como isso se dá?

Não fazendo o cinema de praxe (gostei de abusar da tua expressão!) a gente corre mais riscos, irrita umas pessoinhas tolas, erra, sangra, sei lá. É por aí.

>
> * Falando sobre "Suco de Tomate", o filme tem cenas de sexo, e algumas delas são substituídas por animações. Essas animações funcionaram como algum tipo de censura?

o Sandro Ka tem um traço lindo. Na verdade a gente ia usar o meu traço, que é mais tosco ou
ou o do Marden que é mais noir. Mas como a gente tava curtindo usar cores fortes no filme, acabamos por optar pelo
traço do Sandrinho.
Ele é um puta artista e temos orgulho de ter lançado ele, como temos feito "diariamente", lançado nomes bacanas que vêm arejar esse vício das panelas. Pá nelas. hehhe.

o que é isso de censura ??? poderia ser mais clara?


>
u fala que a tua forma de trabalhar com o cinema luta contra o machismo ostensivo desse meio no Rio Grande do Sul. Esse "gauchismo" não te desanima às vezes?

"Analogia da forma" seria uma expressão redundante eu acho, né?
Mas é isso que eu vou usar pra te responder melhor:

Sabe quando tu entra no banho e não lava o cabelo?
Pois é, eu não consigo fazer isso. Eu não faço chapinha, não pinto o cabelo, não penteio mesmo. Mas tenho a vantagem de ter lindos cabelos soltos.
Tipo, tem gente que consegue entrar no chuveiro e desviar dos pingos pra não estragar o penteado, eu já nasci
despenteada.
Aqui a gente se molha, vai fundo.
Com o gauchismo eu fui ficando mais assim ainda. Porque essas pessoas que metem pau na gente, que decoram fórmulas, que se dizem críticas e nos cumprimentam com ar de "que cês querem aqui no meio das pessoas bacanas",
essas pessoas são só uma casquinha, se elas tomarem o banho todo, o pentedado desmorona.
Então a gente faz o que quer e o máximo que eles podem fazer é ficar esperneando e usando forças políticas, parentescos, esquemas, combinações, turminhas chiques. Mas eles não podem mostrar suas almas porque o penteado vai estragar.
Só que quando tu é sem tempero, tu não é fiel nem a ti mesmo porque tu não tem um TU dentro de ti, quando tu tem interesses, vaidade, conformismo, parentes políticos, amigos colunistas e só, daí um dia tu acaba te mostrando.
Aquela energia do autor, aquele medo do homem vivo, a dor daquele que cria, a vulnerabilidade daquele que arrisca. Isso tu não tem o prazer de sentir quando tu é apenas agradável e certinho.
Por isso, a gente até se anima quando leva porrada. Tipo revolução.
Dá uma emoção sabe! Se todo mundo soubesse como é bom confrontar os bacanas do main stream. Pentelhar eles,
ser livre. O cinema gaúcho é cheio de artimanhas poilíticas, palavras proibidas, olharzinhos de canto. A gente não, a gente
não compõe com ninguém, só com as nossas idéias.
Não fazemos o roteiro certo pra ganhar preminho, não fazemos o casamento certo, a amizade certa, a sociedade secreta certa. A gente cria, se vira pra realizar e botar
na roda pra os "caras" do cinema virem com seus filmes-novela
e suas caras de cu, criticando a gente, ironizando nosso trabalho e dizendo autoritários Nãos.

Teve um tempo que eu sofria diferente o preconceito. E o preconceito que a gente sofre não é só o machismo. É a nossa estética, a forma livre como a gente opina, bebe, trabalha, não entra em esquemas, não tolera panelas e como exigimos nossa parte por que é nosso direito.
Tipo, um dos maiores problemas que temos hoje é a falta de apoio ao FLô dentro da nossa cidade, nem abaixo assinado, nem cartas de apoio do país inteiro resolveram.
A prefeitura de Porto Alegre vai ter que apoiar seja hoje, seja ano que vem nosso projeto pois os FLô acontecesse em cinco salas do estado e tres delas são na capital e somos apoiados por grandes entidades. Eles não podem seguir virando a cara pra gente como se fossemos punks loucos alegando que concorremos com o festival do genro do prefeito. A discussão vai seguir até ter uma solução.

Quer dizer, a gente entra de cabeça. O que importa é sermos honesta com nosso trabalho, sem precisar agradar ninguém ou puxar o saco ou usar sobrenome de aristocrata, que é uma das coisas que mais funciona no gauchismo.
VIVA A REVOLUÇÃO. Quem não gostou que siga dando a bunda. Eu não dou, eu quero o que é nosso.
Também quero a grana que vai pro cinema gaúcho bonzinho, também quero usar as salas de cinema pra mostrar nossos filmes, também quero mostrar meus filmes na tv, quero TUDO. Eles dizem não, eu sigo enchendo o saco, sistematicamente.

É muito tri tomar banho de chuva em pleno temporal porque
que a gente até corre o risco de levar um raio na cabeça, mas somos tão certos dos direitos que temos e de que tem algo de podre na política de incentivos, que ao invés de morrer, acho que os raios estão nos energizando, tipo a fenix negra, a ororo, nós mesmos, gente que tem asas, sem hemorróidas de tanto dar a bunda pro esquema.


> * Como é sobreviver de cinema no Brasil?

Acho que ninguém vive de cinema no Brasil, mas brevemente os caras que estão no esquema e que fazem cinema de praxe (adorei messsmo essa do praxe!) vão começar a
dizer que vivem de cinema, porque rola uma grana bacana pra quem é "bonzinho".
Só que estarão vivendo mesmo é de negociatas. Cinema é outra história.

>
> * Tu diz que não consegue fazer "gracinhas" nos teus filmes, que as pessoas, muitas vezes, olham de "cara feia" para a seriedade dos teus filmes. Mas "Suco de Tomate" não é - por si só - um deboche feminino?

É.


> * Os críticos consideraram "Suco de Tomate" um filme superficial. Mas tu disse que foi essa mesma a tua intenção. Como um filme que expõe o olhar feminino sobre o poder pode ser bom e superficial ao mesmo tempo?

Que bom se a gente tivesse críticos de cinema e melhor ainda se tivessemos críticos que falassem de curtinhas como o Suco. 'magina, quem sou eu. Acho que o único cara de respeito que falou do Suco foi o Carlão Reinchembah.
De início eu fiquei triste com a opinião dele, achei que ele foi machista. Mas meses depois a gente falou longamente no festival de gramado
e entendi melhor algumas coisas. Sei lá, criticas embasadas, não personalistas, de gente inteligente, fazem uma falta danada pro trabalho da gente crescer.

Mas o suco de tomate não tem nada de superficial. Ele tem símbolos como todos os meus filmes tem, muito importantes. E tem erros que eu quis errar. Talvez alguns que eu não quis e ainda não vi. Com o tempo vamos analisando melhor os nossos próprios trabalhos. Comecei há poucos anos e, por enquanto, é a direção de atores o que mais me dá prazer e medo, a parte que mais mexe comigo. O Suco foi exibido pelo mundo e tive muito retorno, muita gente gosta muito da trilha, muitos falam bem da minha interpretação, muitos falam da direção. Muitos falam do trabalho do Sandrinho. Como um todo é difícil que falem pois acho que eu deixei bem fragmentado o filme, mas ainda não sei como explicar isso.
A conversa do pai pra mim é o ponto alto do que eu penso de cinema gaúcho. A metalinguagem não é obvia,
quem não saca curtametragem nem entende.
As personagens sim são superficiais, talvez isso tenha te confundido. Mas é que meu trabalho com atores é sempre tão intenso, tão bom, tão preocupado que as pessoas confundem o filme com as personagens.
É um grande trabalho, só isso. Gostaria de falar muito mais dele, mas para isso vc teria que assisti-lo de verdade, daí a gente voltaria a falar.

>
> * Tu disse também que nossos cineastas, muitas vezes, agem como publicitários. Mas não são? Quero dizer, na falta de escolas de cinema, a maioria busca o curso de Publicidade e Propaganda...

O autor não precisa de academia, ele nasce criativo e livre. A academia acaba sendo necessária pra muitos de nós em alguns momentos que nós mesmos precisamos saber perceber. Mas ela é apenas a forma, o conteúdo está aqui, dentro, em torno, antenas, vísceras.
Devemos ser leitores, críticos, auto-críticos, apreciadores de arte e não-arte, revolucionários, amantes.
Isso não tem nada a ver com escola a não ser que vc precise de um maestro para tanta energia.
Mas cultuta é outra cousa.
E publicitários são publicitários, conheço uns simplesmente geniais, mas o que isso tem a ver com o cinema???

>
> * Quais são as tuas principais influências? Os diretores que mais aprecia...

Acho que tenho influências do Machado de Assis, do meu avô caudilho e da minha irmã que ouvia bandas progressivas e agora se isolou no interior pintando quadros. Também tenho influências do Pictures of You, de tres mulheres bruxas que correm na floresta,uma gorda meio velha, uma bem mais velha só que magra e uma bem jovem e bonita que anda pelada e toma vinho tinto. Tenho influência da minha avó que enterrou armas e
andou com meu pai no colo, descalça, pisando gafanhotos.
Tenho influencia de grandes plantações de crisântemos e eu deitada no meio, na terra fofa lendo as nuvens. Tenho umas influencias de gringos pisando uvas, de
uma gruta de pedra com uma santa que pisa numa cobra e uma menina que passa as tardes de verão ali sozinha lendo uns livros, ouvindo as cigarras e escrevendo num diário pra rasgar ele depois.
Tenho influências de grandes figueiras, um lobisomen, um soldado que se enforcou, barulho de riacho, outono, aulas de francês, cheiro de livro guardado no porão, uma provision iluminada por lampiões numa cidadezinha do Uruguai, manhãs tão frias de sábado com queijo tofu. do único homem que morreria por mim e eu mandei ele embora, da oxum, iemanja, tara vermelha. calendário maia. coisas que ainda não sei.
Ih! São tantas as influências de uma pessoa.


>
> * Tu não é apenas diretora. Tu é "multi", como já disse em outras entrevistas. Conte um pouco dessas tuas funções.

Não é difícil conhecer meu trabalho. Assino muitos textos, muitas tridimensionais, muitos vídeos, músicas.
Acho que quem quiser saber encontra porque sou bem famosinha até.

>
> * E quais são as previsões do ano de 2003? Algum filme em vista?

Além do FLô, que é a revolução em pessoa, estaremos durante o segundo semestre trabalhando umas oficinas em vilas
e estaremos filmando. Estamos com um longa parado, organizando a captação. E quero começar meu próximo 35 mm, Cale-se de Anis ainda em 2003. Já fechei quase todo o elenco, vou atuar de novo porque acho que estou começando a me olhar no espelho e perder o medo de ser atriz. E estou naquela fase que no meu caso demora muito, as personagens, os atores, a vida e as entranhas do filme, que ninguém se aprofunda pra entender e depois vêm dizer que o filme é superficial. Onde estão os críticos do cinema brasileiro?

E estou preparando um estudo que está me apaixonando sobre direção de atores no cinema. O estudo está na fase de metodologia e pretendo inserir uma pesquisa sobre um filme nacional que eu admiro demais justo por ser filme para ator.
Não posso falar muito mais pois seria irresponsável falar sobre aquilo que está ainda no esboço, mas é um projeto audacioso e vai levar um bom tempo pra concluir.


>
> Ah, tu poderia dar o email de algum amigo teu? Eu gostaria de falar com alguém sobre como é conviver com a Bia Werther, só para introduzir a entrevista. Pode ser?

viniciustavares@hotmail.com
ninafabico@uol.com.br
angres@terra.com.br



>
> Grata desde já!
>
> ***************
> Priscíla De Martini
> (54)91261636
> (51)33126313

ENTREVISTA SOBRE CINE DESCONSTRUTOR

Cedida para a Biba Retamozo em 10 de junho de 2003.
Meu Bia ainda não tinha o 'h',
mas eu já me despedia pedindo paz :)

A Biba se tornaria uma parceira que acompanhou nosso trabalho por um bom tempo e, mais tarde, dei muitas outras entrevistas, inclusive pra seu saite Cinema

ENTREVISTA:

Oi Clariane!

Seguem as respostas com revisão e o conceito de cinema desconstrução. É texto demais
talvez, mas achei bom contextualizar de modo completo para colaborar melhor com tua pesquisa.


Paz e sorte,
bIA



O QUE É CINEMA DESCONSTRUÇÃO?


Breve histórico:

O cinema desconstrução começou a exibir trabalhos autorais em 1998, no RS, antes mesmo de
se auto-intitular Cinema Desconstrução.
Os realizadores destes trabalhos experimentais, apaixonados por cinema, pretendiam apenas passar a integrar a comunidade do audiovisual quando foram surpreendidos pela resistência à busca de liberdade na forma das obras apresentadas e no discurso.
No intuito de realizar um cinema de poesia e símbolos, de buscar seu próprio público e iludidos com a idéia de lograr
uma boa recepção por parte da classe, logo de início estes cineastas da desconstrução se descobriram vulneráveis pelo simples motivo de levantarem questões à respeito da repetição exigida pelos critérios vigentes.
Para piorar, os interesses políticos esfriaram a boa
vontade com os "malucos" do cinema de arte e as coisas não seriam tão fáceis assim.
Chamados publicamente de esquizofrênicos, loucos, egocêntricos e irresponsáveis devido ás opiniões políticas e à estética dos filmes, os cineastas desconstrução muito rapidamente se tornaram "persona non grata" para uma boa parte das lideranças do cinema gaúcho.

"Lilith..., a última viagem do século", super 8 dirigido por biA weRTHer
e a "Verdade às vezes mancha", 16 mm dirigido por André Arieta,
causaram um mal estar silencioso no Festival de Gramado.
A partir da ousadia em levar para o festival mais glamouroso do país
filmes que questionavam a própria cultura gaúcha e nosso cinema bem comportado,
pipocaram manifestações de repúdio aos filmes "incompreensíveis"
da turma do Núcleo Cine 8, principalmente por parte de jovens profissionais da área de publicidade e ícones do cinema local.
Alguns achavam que os filmes desconstrução eram uma mera colagem, sem "mensagem", outros achavam depreciativo o fato de alguns trabalhos terem características de vídeo arte.

Dentro da inesperada e um pouco tumultuada realidade que foi o desembarque do núcleo cine 8 no audiovisual gaúcho,
bIA weRTHer lança em 1999, dentro de uma das publicações de sua revista on line, a Cine 8, a primeira versão do interminável
Manifesto do Cinema Desconstrução, na verdade apenas um poema visceral ao qual são somadas novas impressões, sistematicamente, até hoje, a cada lançamento de filme ou mostra.
Os cineastas desconstrução acreditaram que o Manifesto
seria uma espécie de esclarecimento à respeito do cinema "errado" que o Núcleo Cine 8 vinha realizando e a respeito das posições políticas do núcleo,
mas foi como se uma guerra silenciosa tivesse sido iniciada a partir do Manifesto.
Muitos consideraram a atitude egocêntrica demais e
o cinema desconstrução passou a ser vetado em
muitas mostras, debates, júris, projetos que quisessem mostrar o panorama do cinema gaúcho.
O cinema desconstrução é proibido até hoje em salas de cinema cultural, como a PF Gastal
e encontrou uma resistência agressiva da comissão de seleção nas poucas vezes em que tentou verba via Fumproarte
devido aos filmes de "sexo de mau gosto" ou ao vício de escrever roteiros
que fogem à regra de uma página por minuto.

No entanto, em contraponto à reação do main stream e do nariz torcido dos acadêmicos que nunca
consideraram os filmes desconstrução como conteúdo, formato de produção ou discurso relevantes para uma aula sobre cinema gaúcho atual, estudantes de cinema e de comunicação passaram a realizar monografias em cima de trabalhos ou idéias dos cineastas desconstrução.

Em resumo, os cineastas desconstrução passaram numa mesma medida a causar enjôo na corrente predominante e curiosidade e simpatia entre jovens apaixonados por cinema.
Em complemento, jovens realizadores de todo o Brasil passaram a participar das produções e discussões propiciando a
estes filmes e seus realizadores andarem pelo Brasil levando suas idéias em mostras paralelas aos grandes festivais.
Hoje com adeptos por todo o país, o cinema desconstrução
lidera uma mobilização política de várias produtoras de cinema experimental
estando à frente do Festival do Livre Olhar, um movimento que discute, exibe, pratica e premia cinema
livre numa ação que se torna mais polêmica a medida que cresce e se fortalece, ganhando adesões por um lado
e inimigos entre acadêmicos e lideranças acostumados ao conforto de um cinema que parecia estar confortavelmente formatado
pelos concursos, grandes festivais e interesses dos grandes produtores.

Manifesto do Cinema Deconstrução:

(abaixo parte do manifesto que tem a característica de ganhar novos
textos a qualquer hora, hoje o manifesto do cinema desconstrução já tem
mais de 20 laudas que estão publicadas aos pedaços em sites de cinema e entrevistas)


(parte da primeira fase manifesto, escrita em 1999)

....
desconstruir o conto para receber inesperadas leituras. equívocos doces.
cometE o erro da forma, desrespeita a exatidão.
subvertE. sem roteiro, com.
diálogo livre do olhar, participação ativa, pensante.
símbolos sem explicação, incomodas metáforas fora de moda. cinema desconstrução.

AS vísceras dão náuseas no homem moderno de auto-ajuda.
as vÍSCEras tem a cor do sangue proibido pelo estudioso polido do cinema em ORDem.
tudo sob conTROLe enquanto
chove profundamente no outono de porto alegre.
vinho tinto, pedras seculares pisadas por qorpo santo....

Cinema Desconstrução. Imagem, moviMENTO.
CUspe no ciNEMA boM menino!
liVRe olhar suBVERTido no espelho,
MUITO longe do que perto só promete
sofrO das palavras que não falas.
tenho uns sustos SÃO de meia hora.
tenho outros de quinze minutos.
quando o tempo vai FICO um segundo,
durmo entre os sustos dos espelhos,
tens olhos, não me oLHam, eu nos teus.
olhos, TUA BOCA QUE BOCEJA.
qual cINema desCONstrução no
asSOberbado cinema Gaúcho, academia do descaso em silêncio estéril de unanimidades superficiais.
passo certo, médio, sob o controle televisão. aristocracia branca.
o tempo, ciclos, espaço se abre a mURROs.

Faz um filme muito esquisito!
Assiste um filme livre!
Escreve a história!


PERGUNTAS:


1. Qual sua opinião cenário de efervescência cinematográfica no Brasil?

Acredito que existe uma efervescência mundial em torno de toda a expressão audiovisual, uma efervescência diferente e mais popular do que em outros momentos da história do cinema ou do que em pólos específicos como Hollywood porque finalmente a imagem em movimento foi perdendo a parte do mistério que não precisava. É ruim descobrir que fadas não existem mas a gente precisa crescer um dia e o contador de histórias verdadeiramente livre tem a vantagem de juntar as duas coisas, mente que fadas existem para si próprio. Essa maluquice deixa todo mundo querendo ser cineasta também. A continuar assim, brevemente todo mundo vai ter sido cineasta por um dia.

Quero dizer, uma facção da produção mundial de cinema deixou de ser apenas entretenimento e ficção de mercado e está se tornando uma alternativa dinâmica e acessível de registro histórico como nunca tinha acontecido antes porque fazer cinema está ficando barato agora que o vídeo tomou coragem de se dizer cinema. Já tem gente gritado: - Morte à kinescopia!

A função do cinema está se diversificando. A cada dia um maior número de pessoas pode participar efetivamente da história, interferir, praticar, ousar. O cinema já não é mais apenas película, luz projetada e um tapete vermelho. Hoje a imagem em movimento se aproxima do que seria uma caneta e um papel em tempos nem tão remotos quando o homem comum participava de uma história e seus netos liam outra já reformulada pela interferência do tempo, do medo, de interesses políticos e etc. Certo que o audiovisual passa pelas mesmas edições que a história no papel mas o tempo real que a imagem em movimento possibilita contribui para um sonho antigo de história real que habita cada contador de histórias, louco para que deus, anjos e bruxas existam e possibilitem ao homem comum descobrir que existem mas não existem. Ação e questionamento.

Antigamente ficava parecendo que uma maioria de indivíduos passivos estava à mercê do que a maioria dos livros de história teriam pra contar. Depois veio a televisão para cumprir este mesmo papel. De repente, nós começamos a pegar a câmera! Obviamente estamos longe das verdades e da inclusão social, aprendendo ainda a escrever nossa própria memória até porque não é apenas o fato de dominar técnicas de filmagem que nos liberta a mente. Por outro lado, as facilidades da imagem em movimento sinalizam uma certa revolução onde você pode mostrar o Agora e eterniza-lo. Você no poder. Por isso o vídeo, por exemplo, retornou enquanto arte com tanta força e sabendo se colocar melhor, utilizando a vantagem que tem sobre a película que é o fato de ser acessível e popular. Em sua primeira fase, a vídeo arte era erudita, depois ficou inferior, ou seja, sempre para poucos. Hoje até uma imagem em movimento realizada para a internet passa a querer ser considerada cinema. Porque os conceitos estão sendo revolucionados a cada dia. A forma está a serviço do conteúdo para um bom número de realizadores que não supervaloriza o suporte ou as técnicas acadêmicas. Pra outros esse posicionamento é definitivamente um equívoco.
Assim, o cinema ferve, discute.

Quero dizer com isso que a efervescência talvez tenha bases antropológicas e, como sempre, a mídia (nisso entram os oportunismos televisivos) tenta trazer para si a assinatura da campanha. E é claro que a indústria, mesmo sem querer, tem muito a ver com tudo isso pois, tenha certeza, sem as inovações tecnológicas o cinema - seja em vídeo, seja em película - continuaria seguindo um caminho que até a pouco parecia sem volta, a mercê da recorrência de imagens imposta pela televisão e/ou dos superfaturamentos. Não que a indústria pensasse em uma mudança de comportamento além da mercadológica, ao contrário. Mas eles, mídia e indústria são burros e andam em círculos, esquecendo sempre que a arte é a parte mais incrível, mais frágil e mais docemente manipuladora da existência humana porque abusa descaradamente de tudo o que a razão cria. O artista transgride os caminhos desenhados pela mídia e pela indústria para ser consumido depois e ressurgir mais adiante saído da própria ferrramenta da indústria que o sufocou. Por exemplo, o vídeo estava para a festa de casamento e o artista o transformou em cinema, desmistificando a purpurina.
Acho que é isto o que você chama de efervescência, o diálogo entre cinema e cinema e não propriamente a produção porque esta é produto e só.

À respeito do Brasil,
estamos entre os países escravizados, estamos entre as culturas assassinadas, estamos entre as histórias obscuras. Neste panorama, qualquer lampadinha de natal talvez nos pareça o próprio sol. Ora, o cinema é uma expressão que magnetiza como nenhuma outra talvez e, pra completar, hoje em dia quase todo mundo já pode ser um cineasta.

A síntese?
Não são os concursos de curtas com seus critérios duros e reacionários que fazem ferver o cinema, nem a produção que não é tanta assim, com o agravante do pouco espaço para a diversidade. O que excita são os movimentos invisíveis que estão empurrando o portão pelo lado de fora e que o padrão constituído se mobiliza pra manter embaixo do tapete.
Essas produções tipo globo filmes e os curtas tipo comercial da coca que sobem no podium dos festivais ricos não fariam ninguém sentir tesão. É um outro movimento que está no ar e que te esquenta, como foi sempre na história, são as asas. Tem algo acontecendo aqui fora. Algo que a hegemonia te proibirá de conhecer enquanto puder te manipular. Mas tá aqui, fazendo ferver o cinema no Brasil e no resto do mundo. Fora do Oscar, fora de Cannes, fora de Gramado, fora dos curtas da RBS -TV, fora do previsível. Esses projetos glamourosos são apenas a maquiagem de um contexto, uma parte de um todo que não sobreviveria sem o segredo que faz ferver o cinema, a existência inevitável do livre realizador, sem verba, sem câmera, sem nada além de sua paixão que vai rachando os muros.
Por isso, toda a vez que um nome glamouroso do cinema aparecer com uma idéia "inovadora", duvide. Ela já foi sufocada muito antes na boca e mãos de um realizador comum, depois processada e industrializada fechando mais um ciclo da história que mente.



2 - Como enxerga o Rio Grande do Sul neste contexto?

O RS está engatinhando por uma questão muito simples, nós sofremos barbaramente com a hegemonia no audiovisual. O panorama é preocupante. Você nunca saberá na verdade o que está acontecendo no mercado audiovisual pois todas as informações são dirigidas. Existe uma enorme resistência ao novo e ao diferente. O pouco público de cinema acredita que a produção de filmes está limitada aos curtas exibidos na RBS-TV e filmes aceitos no Festival de Gramado. A tentativa da corrente predominante tem sido desviar o olhar do público de uma realidade, a de que com o crescimento vem também a diversidade e disso depende a saúde do próprio mercado.

Mas justo pela efervescência mundial em torno da produção audiovisual e suas mais diversas correntes esse funil desenhado pelo monopólio do audiovisual no RS está prestes a implodir. Por tudo isso, os ânimos se aquecem com facilidade ultimamente.

Tenho muitas esperanças porque faço parte de uma maioria que não tem poder político, que não está na RBS-TV, que não tem um kikito na prateleira e, mesmo assim, não paramos nunca de produzir e estamos sempre sendo procurados pelos novos que querem conhecer o outro lado do audiovisual gaúcho.

3. O que ainda falta para consolidar uma indústria de cinema no Brasil / estado?

Tecnicamente falta muito para uma indústria. Politicamente mais ainda. Ficaríamos aqui falando 3 dias. Mas estou convicta de que um grande começo para a profissionalização seria a abertura. Rasgar as listas negras do monopólio e ouvir todos os realizadores de forma igual, não o sobrenome, o parentesco, a idade, o sexo. Parece subjetivo mas muitas soluções viriam daí pois quebraríamos muitos preconceitos que por incrível que pareça ainda se fazem presentes no quase-mercado.

4 - Enxerga alguma peculiaridade na produção cinematográfica gaúcha? Quais?

A produção audiovisual gaúcha é manipulada por uma grande rede de tv e um pequeno grupo de cineastas que fazem política pessoal. Essa é a principal característica que sinto na pele como cineasta e isto é fundamental para os caminhos de produção estarem ao meu ver meio tortos. Claro que existem a partir daí uma série de microcosmos geradores de outras características constrangedoras como por exemplo o fato de muitos diretores e presidentes de entidades e salas de cinema estarem alheios à realidade do cinema local e fechados num pequeno circulo onde o ar ficou viciado. Ou o fato de grande parte da classe ter medo do confronto diante das situações corporativistas. Ou o hilário desbunde de muitos formadores de opinião diante de atores globais, nomes famosos locais ou privilegiados políticos. Em resumo, somos uma província que quer mudar mas acho que não sabemos ainda como vencer nossos medos. Daqui há pouco um milagre acontece, é um pressentimento.


5 - Essa singularidade surgiu do que? Da história?

Surgiu da história, da nossa cultura mesmo. Não seria no cinema que fugiríamos disto, estamos repetindo nossos antepassados apenas.

6 - Acha que o gaúcho se identifica com o cinema feito aqui? Por que?

Acho que não deveria existir um perfil de público gaúcho apenas, como não deve existir apenas um cinema gaúcho, por isso acho que alguns filmes podem dialogar com algumas pessoas, outros com outras, uns com mais, outros com menos. Deve haver espaço para todos. Claro que os filmes mais lineares vão se comunicar mais facilmente e os autorais terão menos público, mas isso faz parte. Existe o vendedor e o artista, o mundo precisa de todas as expressões e a cinema gaúcho só vai se tornar industria ao aceitar esse fato.

7- Considera que as Histórias Curtas são filmes ou produtos de teledramaturgia?
Com todo o respeito às escolhas de cada realizador percebo que,
ao observarmos com atenção, os curtas da rbs, não raro tem herança de filmes para tv, comerciais moderninhos e novelas. Mesmo assim não acho que sejam exatamente produtos pois, justo talvez por serem ensaios e referências de produtos caros, muitos ficam aquém do que seria necessário para ser um bom produto de venda. Falta liberdade, um pouco de ousadia, experimentos, inovações corajosas que os bons produtos precisam apresentar para estarem além de uma exibição ao meio dia na tv aberta. Olhando de modo genérico, observamos que os critérios passam por conceitos aprisionados aos interesses hegemônicos de quem está promovendo o concurso. Até aí nada de novo. Mas não é só isso, a curiosidade está no fato de que os próprios trabalhos inscritos parecem pouco preocupados em questionar o contexto, ou sequer seus produtores enxergam essa realidade preocupante. Não estou generalizando, é claro, mas em muitos casos sinto falta de uma referência relativa à responsabilidade social de um jovem realizador que, em outros tempos, quereria mais que apenas apresentar um trabalho agradável ao monopólio, um tema de casa correto por assim dizer. Creio que você não encontrará neste contexto acomodado espaço para a pesquisa de linguagem, para uma verdadeira crítica social, para um diálogo mais embasado, para um retrato menos caricato, seja esteticamente, seja no conteúdo. Portanto, mais uma vez acho que o assunto transcende a questão técnica e vai para o plano social e para a realidade das expressões artísticas de hoje, diluídas num fast food de plástico.

8- Considera que as diferenças entre os formatos audiovisuais de captação de imagens interferem na narrativa? Por que?

Se você sabe porque optou por determinado formato, você não vai errar ou vai "errar certo". Mas para isso você tem que pensar cinema e buscar o Seu cinema, o que é bastante raro quando a ordem são as referências, repetindo o sistema dos profissionais de filmes publicitários.

9 - O que acha dos Projetos Especiais da RBS TV?

O pouco que assisti considerei fórmulas mal visitadas e preguiçosas.

10 - O que acha do Projeto Histórias Curtas?

Discorri sobre a manipulação da televisão nas respostas anteriores.


1. Acreditas que falte espaço para o cinema desconstruído?

Não falta apenas espaço para o cinema desconstrução e sim para todos que confrontatem as regras estabelecidas.
Mas, falando especificamente dos desconstruidos, sim, falta espaço para nossos filmes, roteiros, idéias. Temos lutado até as últimas consequencias para criar alternativas e temos sofrido muitas retaliações por isso, diariamente. Mesmo assim filmamos muito, viajamos muito pelo Brasil com os filmes que têm ido também pra festivais experimentais no exterior. Fazemos muitos eventos, cada vez juntamos mais adeptos, debatemos e enfrentamos as barreiras de frente porque não adianta ter medo da ira dos poderosos. Depois, não temos nada a perder pois os inimigos do cinema experimental são na maioria pessoas que mamam nas tetas do estado e muitos tem segredos em relação a esta realidade, já o cinema desconstrução nunca teve alguma verba questionada, nunca recebemos algum prêmio duvidoso e nenhum de nós tem cargo de confiança e está fazendo mau uso do poder. Não entendemos nada de política partidária e este é o maior problema pois a política do cinema brasileiro parece valorizar mais o discurso político ensaiado do bom-mocismo, deixando de lado todo o valor de uma a obra honesta e livre - ou louca, como chamariam os corporativistas.

Enfim, o cinema desconstrução passa por constrangedoras situações de desrespeito e boicote até porque muitos líderes e diretores de entidades não sabem nada sobre nós, nunca perguntam, nunca observam ou estudam. Um a um, vão se deixando levar pelo que diz o colega de turma. Mas nenhum sabe quantos filmes fizemos, como trabalhamos com nossos atores, como fazemos para conseguir dinheiro já que eles nos fecham as portas dos editais, onde exibimos nossos trabalhos já que não estamos nos grandes veículos, onde discutimos nossos filmes já que estamos proibidos em suas publicações.

A resistância criou um estigma para o cinema desconstrução. Somos taxados de loucos e ironizados sempre que eles não têm respostas para nossas questões. Também parecemos loucos porque precisamos gritar para que sejamos "quase" ouvidos. Sinto essa reação personalista, meio desesperada e nada estratégica como um sintoma de vitória do cinema desconstrução, afinal os grandes revolucionários da história foram chamados de loucos por seus contemporâneos e as próprias lideranças que hoje nos desqualificam já tiveram seus momentos de loucura há décadas atrás. Claro que nada disso é divertido para quem está enfrentando, é complicado quando seus opositores políticos caem na baixaria. Mas luta é para se lutar e estamos confrontando e nos preparando para o que vier. O futuro dirá e o cinema desconstrução ainda vai incomodar muito. A verdade é que temos feito verdadeiros milagres e creio que estamos mudando o mundo. Se não fosse assim, tu não estarias agora registrando minhas opiniões.

Entrevista sobre Super8

Cedida para o jornalista Denis Barbosa, de SP lá por 2002.
Estou procurando o nome do veículo e data de veiculação.


Olá Dennis,

Aí vão as respostas. Chego em SP na sexta,
se quiser falar alguma coisa pessoalmente ou ilustrar sua matéria me manda
um e-mail
e a gente se encontra.

> >
> > - Você tem notado um aumento do movimento Super-8 no
> > Brasil nos últimos anos?

O cinema brasileiro em geral está crescendo em todos os aspectos.
Já dá pra sentir um cheiro de diversidade e isso é bom.
Quanto ao super 8, óbvio, é um dos suportes, se outros crescem, ele
também.


> > - Qual a perspectiva futura, na sua opinião, para o
> > formato?

Apesar do paradoxo, o super 8 é revestido de um certo glamour.
Começar com super 8 é ser radical.
Quero dizer, muitos jovens realizadores que buscam uma identidade,
particularidades
para suas obras percebem uma visibilidade maior para as mesmas e para suas
idéias da que teriam
começando seus exercícios com 16 ou vídeo, que também são opções
relativamente baratas e acessíveis
e que te dão o direito de viajar à vontade.
Mas nós criamos uma aura em torno do super 8.
Acontece que, hoje, não existe revolução. A comunicação saiu do seu canto
dentro da expressão
pra dar as cartas. Isso transforma tanto o público quanto realizadores meros
porta-vozes da censura
causada pela falta de personalidade.
Com isso, muitas vezes percebo que o super 8 para aqueles jovens que sentem
a necessidade de chutar o pau da barraca
é uma oportunidade de se sentir parte de uma espécie de resistência.
O super 8 é inovador mesmo sendo antiquado,
porque dá um gostinho de revolução já que as idéias estão acima da técnica.
É a expressão antes da comunicação. E isso, nos dias de hoje, é inovação.
Algo, aliás, proibido em muitas das melhores escolas, onde as crianças mais
radicais, que começam hoje no super 8 se sentem apenas aprendizes de
apertadores de parafuso.
Mas, a verdadeira revolução, que inexiste, só aconteceria se usássemos
qualquer suporte, qualquer pincel, qualquer textura, qualquer palavra,
qualquer arma, sem medo.
No dia em que as crianças começarem a fazer cinema sem a pretensão da
genialidade e sem a pretensão
de dimensionar importância à tempo e espaço, aí então o super 8 vai
acontecer sem tanta distinção entre cinema de gente grande e cinema super 8.
Cinema é cinema.
Sonho com o dia que ninguém mais venha me entrevistar sobre super 8 como
estética, porque não é.
Tampouco movimento,
Super 8 é apenas um instrumento. Então vão nos entrevistar sobre as
especificidades do cinema de cada qual.
Seria essa a revolução? Relegar o suporte super 8 ao que ele realmente é e
educar
as pessoas para pensarem cinema como algo pessoal?
Talvez. Enfim, o certo é que super 8, enquanto modismo, não vai além de uns
poucos anos.

> > - Qual o diferencial que a atrai no Super-8, se
> > houver, além do preço?

Pessoalmente, nunca fiz filmes super 8 por causa do preço. O dia que isso
for parâmetro para que eu realize um trabalho vou mudar de profissão.
Temos dois filmes 16 mm que saíram 3 vezes mais baratos que alguns
de nossos filmes super 8. E meu atual 35 mm, por incrível que pareça
não tá batendo o custo do meu primeiro super 8.
É que alguns trabalhos do Cinema Desconstrução são perfeitos para o suporte.
Como se já nascessem dizendo que roupa querem vestir. Super 8.
Num plano mais geral,
como disse anteriormente, ao menos para as pessoas
que escolhemos pra aprender com a gente ou
estagiários, ouvintes de palestras e alunos de oficina, o super 8 é uma
opção
ideológica. Resistência. Essa é a turma que eu conheço, que vem até
a gente país afora. Se existe alguém que opta pelo super 8 só pelo preço,
ainda bem que eu não convivo com esse homem de gelo, porque eu ia ser muito
punk com a pessoa.
Se for só por preço,
então escolham uma profissão mais barata.
Cinema é produção, política, linguagem, expressão, mercado.
Preço a gente resolve lutando por tudo isso. Aprendendo a produzir,
nos inserindo, mostrando trabalho, nos fazendo respeitar, vendendo a idéia.
Nos dando mal, dando a volta por cima. Cinema não é comercial de tv, ao
menos não pra mim.


> > - Você considera que seus filmes tem alguma influência
> > dos Superoitismo dos anos 70? Qual a importância do
> > que se produziu naquela época pra você?


Não tenho influência alguma dos filmes brasileiros em super 8 dos anos 70
pois não conheci os trabalhos
daquela época.
Só recentemente conheci um longa, Deu pra ti anos 70, e gostei bastante, até
porque sou amiga de muitas pessoas que estavam jovens ali no filme. Misturei
as coisas porque gosto disso, informalidade. Nem sei se o filme é realmente
tão bom
mas eu amei.
Enfim, não temos semelhança alguma além da
vontade de filmar e da liderança.
A real importância deles para mim foi a de realizar filmes. Esse é o
exemplo. Façam. Isso é que vale.
Acho que quem se julga cineasta e não tem filmes para mostrar é, em geral,
muito equivocado e arrogante. Então, não se entreguem apenas as teorias da
sala de aula.
Estudem história, tenham interesse, se posicionem, corram atrás da
informação, busquem seu próprio espaço e façam filmes. Ruins ou bons,
não importa. Tentem se inserir realizando. Precisamos disso, o cinema
nacional tá cheio de falcatruas que não têm filme no currículo
e circulam pelas abd´s, dão oficinas falcratua e podem até ganhar mais
grana que muito cineasta de verdade. Porque é fácil ensinar fórmula, não
precisa fazer filmes
pra decorar. Agora honestidade, personalidade, obras, aí tem que ser fodão.
Se você fizer filmes você vai ter mais sensibilidade
para reconhecer quem ta sobrando na classe e você vai ter mais direitos
e deveres e pode, talvez, chegar a um cinema só seu, caso seja esse seu
sonho.
Mas mesmo você sendo um carinha que vê cinema de um jeito careta, uma coisa
é certa: só se faz cinema fazendo.

?
> > - Como você situa o Rio Grande do Sul no cenário do
> > Super-8 brasileiro?

Já disse em outras entrevistas e repito sem medo. O RS
tem um cinema de quantidade crescente. Mas a qualidade se resume, no máximo,
a parte
técnica. No caso do super 8, nem mais aí.
O problema é que se ficarmos só na quantidade, a coisa vira apenas competiçã
o mesmo.
E eu luto pelo cinema de identidade. Obra, entende?
Um autor tem que ter uma obra, um caminho pessoal que fique
visível e não o torne um apertador de parafusos. Isso é morno e não acresce
nada.
Acho que temos dado muito para o super 8 brasileiro. Mostras,
exemplos, atitude e tal. Como disse antes, realizar é preciso.
Mas pra nós mesmos, temos dado muito pouco aqui no sul.
Não colaboramos em quase nada socialmente. Nossa arrogância branca e
burguesa
faz com que olhemos apenas para o nosso umbigo apolítico e medroso
das verdades e do espelho. Bem, sem espelho não há cinema e se super 8 é
cinema, o super 8 gaúcho ainda não é cinema no RS. Não sei se deu pra
entender. Também não estou generalizando,
mas falo da maioria.
Talvez minha opinião,
seja fosse também para o restante do país, mas prefiro falar do meu bairro,
desse
canto aqui que eu conheço bem, daí minhas opiniões se fortalecem pelo
aspecto de
auto-crítica que ganham. Claro, já conheço bem o panorama nacional, mas
ainda
não tenho tamanho pra fazer críticas.
bIA weRTHer

>>Bem, é isso. Desde já agradeço e espero que possa me
>>ajudar.

>>Obrigado.

>>Dennis Barbosa

Entrevista para o Jornal O DIA

Entrevista para o Jornal O DIA
Jornalista: Tiana Ellvanger
Cedida em 13/05/2004

1) Qual a sua relação com o filme de curta-metragem? Você é roteirista, diretora e produtora, certo? Fale um pouquinho da sua obra, principalmente em relação aos curtas.

Sou roteirista, diretora e diretora de arte. Quanto à produção, eu até gosto de desenhar, mas executar produção... Tenho conseguido fugir disto há algum tempo.

Bem, eu sou uma cineasta que vem contando histórias curtas nem tão curtas porque às vezes parecem maiores do que aquilo que indica o cronômetro.

Imergi no mundo da imagem em movimento em 92/93. Na época, como eu tinha uma banda, eu me dedicava a cobrir shows. Gravei uma infinidade deles, alguns encomendados pelas próprias bandas, outros para televisão. Eu curtia fazer camarim e palco, nunca fiquei na mesa, raramente fiz a câmera principal. Eu gostava de ação.
Mas que eu era estilista e desenhava objetos era o que me dava grana, claro.
Então foi só juntar tudo e acabei me encontrando com a ficção. De início como figurinista, aderecista. Tudo em vídeo de amigos até que começamos o cineclube, que antes chamava Aruã (eu odiava esse nome).

Em 98 começamos a filmar nossa primeira ficção, já como Núcleo Cine 8. Era o 16 ‘ A verdade às vezes mancha’. A direção é do André Arieta. Eu fui co-roteirista, fiz direção de arte, produção. Levamos mais de um ano filmando numa fazenda, indo e voltando. Era meio super-produção, muita figuração, muita gente pra cuidar. Gastamos tanto filme quanto num longa. Com isso, a montagem de Milton do Prado, premiada no Festival de Vitória, levou cerca de um ano.

Neste interlúdio dirigi em 99 meu primeiro curta. O super 8 lento, feminino, introspectivo e poético ‘Lilith... A última viajem do século’. Os 9 minutos sem roteiro arrancaram o mais profundo silêncio na mostra de super 8 do Festival de Gramado. Perdido em meio a tantos filmes dos meninos corados, publicitários e cheios graça do cinema ‘jovem’, minha Lilith negra descobriu a frieza branca e o olhar de desdém dos colegas.

Acho que aí começou minha trajetória, era inevitável, a gente iria incomodar muito o cinema gaúcho.

Alguns filmes depois nós lançamos o manifesto do Cinema Desconstrução. Um modo de fazer entender que aquilo que fazíamos se tratava de opção, tínhamos consciência de que estava sendo entendido como um mero acúmulo de erros técnicos. Pelo nosso gosto pela descontrução narrativa e pelo não-roteiro. Para nós, mesmo que nosso cinema fosse um erro... Bem, viva o erro!!




2) O que define exatamente um filme de curta-metragem? Que características, tanto estéticas quanto de conteúdo, podem ser atribuídas somente aos curtas, ou que aparecem mais constantemente neles do que em filmes de longa-metragem?

Não será o tamanho da obra que vai definir as características estéticas. Também em relação ao conteúdo, isto não existe, a não ser que você não seja adepto do cinema livre.
Em minha opinião, o tempo não importa. Não faz diferença.
Mas existe um padrão que define o tamanho de um curta. É um padrão que varia. Me parece algo fálico, porque curta é algo entre 15 e 25 minutos.
A única relevância disto são os interesses da indústria. Para o criativo, isto é uma verdadeira prisão que deveria ser desconsiderada.


3) Na história do cinema, como podemos classificar os curtas? Qual a sua importância dentro da história do cinema?

A classificação é justo esta, são curtos. A história que ouvimos é a de que os curtas seriam um degrau de aprendizado para chegar ao longa-metragem.
Acho esta uma redução no mínimo careta. A importância de um filme na história do cinema não se deve ao seu tamanho.
De fato, a indústria nos leva a pensar nos números. Quanto mais caro, quanto mais bilheteria, quanto maior, mas importante para a história. Mas devemos ser responsáveis, não acreditar em tudo o que nos socam goela abaixo e procurar conhecer, saber mais e mais.
Se o público sair da sala de xópin, e caminhar por salas culturais, se a platéia buscar conhecimento, se o cidadão criticar, ele vai ter à sua disposição a história real. Daí podermos ver que o curta-metragem

4) Hoje existe um pouco de preconceito com relação aos filmes de curta-metragem. Você concorda com isso? A que fatores você atribuiria esse preconceito?

Acho que a resposta já está inclusa na anterior. Os padrões da indústria e sua inerente lavagem cerebral fazem com que o homem entenda o que vem pronto. Tu levarias a namorada no sábado à noite pra assistir uma hora de meia de filmes curtos? Não, né? Mas tu sabe porque não? Não vale a resposta pronta à respeito do valor do teu dinheiro. Do melhor produto, etc. Não. Quero que me responda porque tua cabeça está tão cansada, tão pouco ousada, tão pouco excitada com o novo.

5) Por sua produção ser geralmente mais barata e o tempo que se demanda para assistir ser menor, em tese, os curtas poderiam alcançar um público maior e até ter uma função social mais abrangente. Você acha que isso acontece? Por que?

Bem, eu sou uma abedista e uma cineclubista. Ou seja, engajadíssima na formação de platéia. E posso afirmar que fazemos milagres. Nossos adversários são monstros vorazes. E nós somos ferozes. Quer dizer, cumprimos uma bela missão, função social. Somos corajosos. E precisamos do apoio do público. Precisamos que todos saiam da apatia, que duvidem quando dizem que curta-metragem é aquele que ganha prêmio em festival glamouroso, que duvidem quando dizem que cinema nacional é aquele que está na tv aberta. Precisamos que todos sejam curiosos, menos medrosos, questionadores. Nossa parte nós fazemos com toda a paixão e um fôlego milagroso.

6) Como você vê o curta atualmente? Que inovações têm sido feitas?

Existem filmes livres, honestos, em busca de identidade. E existem os meninos que fazem a lição de casa do modo mais comportado. A inovação para mim não é estética, embora existe uma pesquisa de linguagem bastante importante. Mas, ao meu ver a inovação é a postura responsável e crítica do realizador.
É o cineasta olhar no espelho e ver que a sua função está muito além de fazer sucesso entre os amigos, não é aparecer, ganhar prêmio, dar entrevistas sobre sua genialidade. A função é abrir questões, debater, incomodar, errar. Nossa profissão tem as mesmas responsabilidades sociais que qualquer outra.Ou até mais, já que tantas vezes filmamos com dinheiro público.

7) O curta-metragem sempre foi muito ligado ao cinema independente. Como se dá essa ligação?

Por não ser uma obra comercial mesmo quando esteticamente é e mesmo muitos filmes conseguem se

8) Que conselhos você daria para quem está começando agora, ou quem tem vontade de se aventurar com cinema?

Eu diria para não acreditar no tempo e no espaço. Para não comprar nada pronto. Para questionar a si próprio e aos padrões acadêmicos. Para não se levar muito a sério só porque conseguiu fazer um curta. Para ser responsável dando um retorno social, sempre. Para ler sobre cinema, muito e muito. E ler também literatura. Para rasgar o roteiro americano. Que pensasse muito sobre qual a diferença entre o cinema nacional e o cinema brasileiro. Que duvidasse das unanimidades.
Diria que buscassem conhecer um pouco de humildade em outras áreas, porque no cinema é quase impossível. Que lessem sobre teatro.
Que procurassem saber um pouco de renascentismo. Que se negassem a ser meros apertadores de parafusos do cinema.Que conhecesse o surrealismo. Que soubessem muito de arte. Que assistisse o cinema independente latino, americano e europeu. Que não fosse ao cinema assistir aos premiados no Oscar, porque daqui há pouco eles estarão na tv mesmo. Que não se travestissem de cineastas. E que não acreditassem que Deus existe.

9) Algum outro aspecto que gostaria de destacar?

Quero ficar a disposição de quem se intressar em conhecer nosso trabalho e
Gostaria de convida-los a assinar nossa lista de discussão.

Entrevista Revista da PUC-RS

Aos poucos retomo a organização de minha clipagem.
Por enquanto estou subindo apenas as melhores entrevistas para imprensa escrita de papel e eletrônica.

Abaixo, entrevista que cedi dia 07 de outubro de 2002 para uma estudante de PUC.
A publicação era uma revista da faculdade, ainda nao achei aqui nome da jornalista e do veículo, mas abaixo as perguntas e respostas.

Não creio que eu ainda concorde totalmente com o que disse na época, mas é legal clipar :)

O TEMPO NO CINEMA

Nome: bIA weRTHer
Profissão: diretora, roteirista, diretora de arte, produtora.

1. A descontinuidade real do cinema, que se transforma numa impressão de continuidade, de fluxo contínuo, é resultado de uma abstração inconsciente da linguagem cinematográfica pelo espectador. Este, acostumado aos filmes, absorve seus truques de linguagem. Como se dá esse entendimento do espectador?

Poderíamos simplificar determinando que os espectadores lêem o que recebem já pronto diante de seus olhos dominados. Mas – ou tomara – o olhar humano ainda não está tão obvio assim.
O entendimento dos espectadores é o enigma e a surpresa que nos motiva.
Base das nossas relações com o mundo que recebe, mal ou bem, nossas obras.
Não creio que os espectadores estejam acostumados com oS filmeS. Podem sim estar acostumados a um único tipo de cinema que lhes é disponibilizado via televisão e salas comerciais. Hegemonia. Mas existem muitos outros cinemas.
Cada espectador é um indivíduo, cada obra uma obra. Mesmo com as pesquisas antropológicas, a mídia controladora e a sensação de que Goebels venceu, melhor seguir acreditando que oS espectadoreS SÃO (sempre no plural) enigmas.
Cada qual compreende de forma particular os estímulos ao observar livremente uma obra. Então se a obra for livre e também o espectador, não fico imbuída a analisar qual entendimento médio seria o dos espectadores, mesmo sabendo que mercadologicamente esta atividade se faria necessária, digo a análise da média. Mas, felizmente, essa não é a função do cineasta livre e sim do corretor.
No entanto, quando se trata de obras médias, indução, fórmulas, aí diria que os espectadores seguem sendo manipulados, num processo de desqualificação de seu próprio senso crítico e na condução de reações padronizadas.
Portanto, os espectadores estariam sendo levados a se tornar “um” espectador de milhões de cabeças e almas idênticas acreditando piamente no tempo, entre outros fundamentos que servem para nada que preste? Parece um final dramático e terrível demais, como se estivéssemos em um filme B de ficção científica. É por isso que não ouso falar em nome dos espectadores.
Creio que a descontinuidade real (como define a introdução da pergunta) do cinema nada a tem a ver com isso. Cinema pode ser apenas arte, nem sempre estratégia. Os truques do cinema podem ser trucagens, brincadeiras, soluções, texturas, arte. E, tecnicamente, nossos maiores truques estão muito mais na montagem que na captação das imagens. Cinema é como magia, todos sabemos que não é de verdade. Os espectadores sabem disto, não se enganam, apenas topam a brincadeira ou a seriedade destas soluções. Gostam ou não. Somos o circo livre para criar, os espectadores são os críticos livres para aplaudir, silenciar, vaiar ou atirar tomates.
A continuidade é técnica, bastidor, há quem a despreze inclusive, porque o cinema, como as outras artes, pode abusar dos erros. Licença poética.
Quero dizer, você nem sempre quer fingir que o tempo e o espaço irreais são reais. Então o espectador que entenda como preferir e sigamos livres para correr os riscos.

2. A filmologia - ciência que estuda a influência do filme sobre o espectador e estabelece as bases psicológicas que o aproximam ou afastam da ação desenrolada na tela - criou o termo diegese. A diegese refere-se a tudo que pertence, no processo intelectivo, à história contada no filme, ao mundo sugerido ou pretendido pela ficção cinematográfica. A diegese, portanto, abarca o mundo ficcional apresentado pelo filme e tudo o que esse mundo implica. Quais são as maneiras de aproximar o espectador da ação?

Lembro novamente que não existe um espectador e uma só ação, seja a ação cinematográfica, seja a da busca ou fuga de relação com o público. Existem tantos cinemas quantos existam autores.
Mas, teríamos uma formula mágica para aproximar o espectador da ação? Infelizmente o audiovisual em países como o Brasil - que ensaiam o desenho de sua indústria audiovisual nas bases da indústria americana -buscam seguir por este caminho.
E felizmente esta tentativa não é importante para todos nós. Ao meu ver ainda não existe uma nomenclatura para este cinema amorfo que não é de autor, trabalha com cartilha e não é de todo uma peça publicitária. Só que isso é uma outra história que, esperemos, seja contabilizada pelos tais cientistas do cinema.
Ora, os processos que conduzem uma ficção devem ser particulares. As formulas de produção, mesmo que desenhadas especificamente para cada obra, estas sim têm algum referencial no que se refere ao processo mais burocrático. Isto porque cinema é indústria, assim seguimos alguns passos técnicos inevitáveis, comuns a quase todos os trabalhos. Mas estes se resumem à produção como já disse.
Aquele filme que traz cartilha já na sua criação numa tentativa de buscar bilheteria ou, como prefere a pergunta, buscando aproximar o espectador da ação, não corre apenas aqueles riscos de mercado que qualquer produto – tenha cartilha ou não – corre. Mas corre o pior dos riscos, o de não ter alma, não ter personalidade e cair no vazio a exemplo das muitas e muitas “quase” obras cinematográficas brasileiras que surgem a cada dia nas telas seguindo fórmulas academicistas e que não conseguem atingir o público justo pela falta de ousadia cinematográfica, inspiração, humanidade, erro.
A diegese, como bem responde a própria pergunta, se refere ao mundo ficcional de “um” filme e as especificidades. Então, SE uma coisa é atingir todo o público possível e outra é buscar “seu” público, como esse universo que defendo se identificaria com seu público caso encontrasse esse público nesta imensidão de critérios, padrões, borderôs, fundamentos e hegemonia?
Diria que para chamar o espectador para a ação qualquer artista honesto poderia simplesmente estar vulnerável aos erros, buscando aprender ser hermético em seu momento precioso de criação. Que as referências aconteçam por distração, que ele procure conhecer sua obra, que ele se apaixone por ela e esqueça o público.
Depois, quando finalmente o filme se tornar o inevitável PRODUTO, então o público, gente de verdade que é, talvez perceba honestidade, personalidade e humanidade, e esse hermetismo que todos nós queremos perceber quando estamos cara a cara com a obra. Porque a obra não é uma fórmula, mas seu criador, desnudo. E disso, de gente, o público entende ainda.
O público precisa ser respeitado. O público são diversos indivíduos, milhares, milhões, cada qual um ser, hermético. Defini-lo de maneira simplista e arrogante apenas como “o espectador” e prever sua reação através de conceitos pré-prontos nem sempre dá certo, ainda bem.
Sejamos apenas honestos ao criar, e como em todas as relações, pode simplesmente não haver relação mesmo que sejamos assim honestos, pois existem mais coisas acontecendo entre o primeiro momento de inspiração e o apagar das luzes da sala cinema que possam prever nossa academia e nossa indústria.

3. Distinguem-se, no filme: o tempo real (ou o tempo físico: duração cronométrica da projeção); o tempo psicológico (duração subjetiva da fábula narrada: um dia, meses, anos); e o tempo dramático (ou narrativo: tempo verbal em que transcorre a história/fábula: presente, passado ou futuro). Qual filme, na sua opinião, utiliza melhor essas definições de tempo, de maneira que o espectador se surpreenda com a forma da narrativa? Comente-o. Obs: pode ser mais de um.

Os conceitos de tempo quando se pensa em arte são, ainda bem, inexistentes ou ao menos esquisitos. Esses tempos que você cita, com perdão da expressão, são falácia acadêmica, nenhum “autor” considera estas definições como relevantes ao contar uma história ou não história. É tudo muito subjetivo.
Ao observar uma obra, não me importo em analisar tempo real ou irreal. Seria como ler um poema métrico utilizando-se de régua e calculadora.
Sobre psicologia, é tudo simples, apenas percebemos e sentimos afinidade ou não.
Pessoalmente, gosto de obras que apresentem o não tempo, que desrespeitem o tempo e também o espaço.
Luis Buñel imprimiu obras primas que brincam com o tempo e o espaço. O Fantasma da Liberdade passa por uma descontinuidade continuada complicada tecnicamente. É um filme excepcional e gentil com os espectadores por causar sensações de sem fim, reflexão, falta. Relação entre o autor e a obra, entre a obra e os espectadores e, portanto, entre estes e o autor de uma forma humana, sem previsões ou contabilidade monótona. Vida e liberdade. Isto é dominar o tempo, ser deus. Definições não importam.
Já em O Anjo Exterminador, o tempo é maçante, duro, tenso, denso. Poderíamos mesmo tocar o tempo embora o grande centro seja o espaço, pretensão humana, poder, perda do controle, diferenças, fronteiras, ciclos.
A psicologia destes filmes? Está ali.
Mas a indústria do cinema é fascista e finge que não sabe que o ponto alto da arte da imagem em movimento é o filme de arte. Os demais são produtos de consumo com prazo de validade, justo por serem vencidos pela própria definição de tempo. Mas a busca até mesmo dos mais medíocres cineastas é se pretenderem livres criadores, artistas, autores.
O tempo real de Stroheim, por exemplo, foi um incomodo que enganou a indústria durante algum tempo, mas creio que foi justamente sua relação particular com o tempo que o marginalizou depois. Greed, filme de Stoheim de 1923, teve uma primeira versão de 8 horas. Isto impossibilitava sua venda e os produtores exigiram uma nova montagem e mais outra logo a seguir.
Aproveitando este autor, vou aqui encerrar o assunto do tempo no cinema e na vida reproduzindo uma frase de Stroheim: “Em toda a minha vida só fiz realmente um filme, mas nunca ninguém viu. Os pobres restos despedaçados e mutilados foram exibidos sob o nome de “Greed”.”


bIA weRTHer

domingo, 27 de julho de 2008

Entrevista sobre o FLõ itinerante



Abaixo a íntegra da entrevista cedida à jornalista Simone Marques, do saite da Fundacine.
A matéria editada está no saite da Fundacine: http://www.fundacine.org.br/home.php?vz=200&vp=1285
Esta entrevista tbm se encontra na sala de imprensa do FLõ: www.flo.cinema.com.br
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SM:Quando e como surgiu a oportunidade de realizar o Flõ em Barça?

O Flõ de Barcelona começou a acontecer quando o Edu Ioschpe,
que é uma das pessoas ativas do Cinema8ito e do FLõ se mudou pra lá pra estudar cinema.
Assim que chegou o Edu começou a organizar a nossa rede, fortalecendo contatos
com outros coletivos irmãos que atuam na Europa (Representa Corisco, entre outros). Com a presença física tudo ficou
muito mais fácil. O Edu chegou e já conseguiu
exibir nossos filmes em Barcelona várias vezes e em Paris uma vez.
Sempre muito dedicado e muito leal, desde a partida já garantia que
conseguiria levar o FLõ pra Espanha, tal qual fazemos pelo Brasil,
onde já é uma realidade o Cinema na Mochila (FLõ itinerante).

O Edu e eu, biAh, com ajuda dos demais integrantes do Cine8,
começamos testando o público de lá com pequenas mostras em bar e
participando de Festivais, como o Brasil Noar e o Visual Brasil.
Vimos que nossos filmes eram super bem recebidos e, portanto,
os filmes de outros coletivos exibidos no FLõ também agradariam o público.
Daí foi só uma questão de tempo pra conseguir o melhor espaço, datas boas, parceria e toda a produção
que faz parte de uma mostra.

Ficamos neste processo por cerca de 18 meses, conhecendo pessoas,
lugares, mostrando nossos filmes, nossos links, criando uma relação com a cidade
e as pessoas vanguardistas, de cinema e outras artes.

No dia do FLõ em Barcelona, tudo foi como sempre é com a gente, acontecem
coisas surreais que merecerão um livro um dia!
O trem quebrou na ida pra testar os filmes, foi um nervoso só...
Uns goianos estavam no ônibus e, casualmente o FLõ anterior tinha sido em Goiania...
Mas sempre geramos intercambios lindos, tudo dá certo no final, bom que vários brasileiros apareceram, assim como argentinos, catalãos... até um cara de Alegrete estava no flõ de barcelona. Muy lindo!

SM: Em média, quantos filmes são exibidos e em que formato?

Cada mostra que fizemos lá teve um formato, sempre aprendendo...
Mas no dia do FLõ foram 14 filmes, destaques ou premiados do FLõ 2007.
Alguns trabalhos que estão no circuito no Brasil nós não pudemos levar porque
não tinham ainda legendagem e uns poucos atrasaram devido à greve nos correios.
Mas deu pra fazer tudo dar certo e tivemos êxito nesta primeira versão.
Como eu disse, antes exibimos somente nossos próprios filmes, agora
era uma responsabilidade muito maior porque havia uma expectativa por parte
de colegas realizadores que acreditam no Festival do Livre Olhar e nunca deixam
de enviar seus filmes tanto pra competitivas bienais, quanto pras mochilagens.

Queremos crescer com cuidado, acreditamos que ano que vem poderemos,
no mínimo, dobrar o número de filmes, porque o público compareceu,
os parceiros gostaram do conceito, do nosso modo de apresentar a mostra,
de subverter o formato dos festivais convencionais. É tudo muito quente,
até as camisetas dos organizadores são pintadas à mão, uma a uma, são pequenas telas vivas.
Os cartazes são colagens... Enfim, o público sentiu a energia, a alma do FLõ.

SM: Alguma verba para a realização [captação, patrox]?

Olha, o circuito do FLõ acontece por pura coragem.
A cada lugar é um apoiador diferente, tudo depende do parceiro (coletivo livre)
que esteja viabilizando.
No caso de Barcelona, não tínhamos ainda um coletivo conosco.
Éramos sómente o Cinema8ito e o Punt Multimédia (espaço que nos abriu as portas pra exibição).
O Punt deu material gráfico, infra-estrutura e divulgação
e isto já é um grande começo. Afinal, o FLõ de Porto Alegre começou
assim também.

Mas é importante dizer que nunca esquecemos os apoiadores,
então o André Arieta dirigiu um VT, na verdade um curtinha de minuto
rodado nas ruas de Porto Alegre, que define super bem o festival
e ao mesmo tempo divulga as logomarcas de todos os apoiadores.
Este curtinha abre todas as motras do circuito, inclusive
o FLõ de Barcelona. Agora o Punt Multimédia entrará no filminho.
É uma marca da nossa 'rede', juntar quem apóia e levar pelo mundo, na mochila.

SM: O festival em Barça é realizado em qual periodicidade?

O Edu pretende fazer anualmente, mas
faremos uma discussão mais aprofundada,
pensaremos bem em tudo o que alcançamos no circuito independente
da Europa nestes quase dois anos.
Certo é que ano que vem teremos FLõ de verão em Barcelona novamente,
mas de minha parte, estou querendo me aprofundar neste nosso rítmo
de exibirmos junto a outros coletivos e fazermos nossas próprias mostras
mais vezes por ano.
A coisa está se desenhando, temos possibilidades se abrindo, como já acontece no Brasil,
agora é olharmos pra frente e criarmos novas alternativas.

SM: Há chances de estender o Flõ ao restante da Europa? qual tua expectativa para o futuro do Flõ?

Na verdade, acho que estaremos fazendo muito brevemente um FLõzinho no Japão, para a comunidade brasileira,
um panorama bem bacana. Acredito muito nesta possibilidade e não é de hoje que temos debatido
internamente e com um contato muito revolucionário que temos lá e que já abriu um certo caminho,
pois já conseguiu até uma boa matéria sobre o Cinema8ito e tem feito por lá cineclubismo muito parecido
com o nosso, voltado pra manifestações mais sanguíneas, mais livres, menos interessadas em poder e palavras de ordem.

Mas, sobre a Europa, estamos namorando com Portugal desde o segundo FLõ competitivo, que foi em 2005,
mas é normal que as coisas vão demorando porque somos de pensar muito bem,
e existem barreiras de verba, agenda, apoios, muita coisa a estudar, conceito...
Mesmo assim, tenho convicção de que será o próximo lugar fora do Brasil onde o FLõ
poderá levar sua mochila de filmes livres.
No Brasil também as coisas vão se fortalecendo passo-a-passo. Algumas cidades
nós já visitamos mais de uma vez, outras conseguimos fechar finalmente circuito neste ano pela primeira vez.
Aliás, 2008 está sendo fantástico, conseguimos chegar a Goiania, por exemplo, um lugar que namorávamos
já há tempos.

O fato de algumas entidades ou até alguns veículos da imprensa de cinema ainda resistirem, dificulta um pouco,
mas motiva, vamos conquistando credibilidade aos poucos e isto é mais legal
do que se fôssemos os queridinhos da vez.
Vemos gente que lê nossos releases e finge que não existimos, enfrentamos alguns momentos surrealistas
de festivais que acham que somos algum tipo de concorrência. Mas nós somos tri ripongas e temos
nosso jeito de levar as coisas. Somos de paz e gentileza \o/

A cada dia, percebemos que importantes formadores de opinião vão enviando e-mails legais,
vamos percebendo que já fazemos a diferença e que nosso circuito é, de fato, uma revolução, não só pela forma 'desorganizada'
ou pela coragem de trabalharmos sem nenhuma conexão com poder político, mas porque o que nos interessa
é apenas discutir e exibir filmes livres.

E é esta a nossa expectativa para o futuro do FLõ,
vencer as barreiras sem mágoas ou ranços, brindar a cada novo degrau,
abraçar as dezenas de coletivos que ajudamos a fundar ou que nos ajudaram
a existir como uma parte muito importante do terrorismo audiovisual no mundo.

Não queremos mudar nosso jeito, que é acreditar no novo, nuvem, vento,
subversão. Não faremos parte do circuito mais purpurinado, não é nossa perspectiva.
Somando as mochilagens do Cine8 e os anos de FLõ, já estamos na estrada
a cerca de 8 anos, exibimos mais de mil filmes, fizemos tanta coisa que tem
dias que nos olhamos e achamos que fazem 80 anos, porque mesmo antes
disto já fazíamos mostras cineclubistas non sense desde 1996.

Ou seja, estamos cuidando de cada dia, melhorando o que precisa,
superando as adversidades, nos unindo a pessoas que pretendem as mesmas coisas.
Temos descoberto gente parecida em todos os lugares.
A única real perspectiva é fortalecer a rede, o elo que temos com todos os subversivos :)

bjs 8itos

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Cine Livre em Dinossauros

Entrevista cedida ao saite Dinossauros e Afins.
http://www.dinossauroseafins.blogspot.com/
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Biah Werther: cineasta
ENTREVISTA: BIAH WERTHER 13.06.2008
DC&A - Suas oficinas têm caráter itinerante. Que experiências você busca. Como funciona?

Biah Werther - Na verdade o Cinema na Mochila começa como uma itinerancia do FLõ festival do livre olhar e não como oficina. A partir daí, vamos nos adaptando às condições de cada lugar que visitamos, então, muitas vezes não fica possível levar oficinas e daí fazemos sessões comentadas, eventos transmidiáticos, tela na rua, o que o momento intuir... O projeto tem focos bem específicos, levar cinema livre e cine desconstrução para todos os lugares possíveis, viabilizar debate e interação, diversão, formação de público e troca entre cineastas e interessados em fazer cinema. Nisto, sempre que possível, proporcionamos experimento, ou seja, realização de curtas de oficina que passam a fazer parte do nosso acervo.
Sobre o que busco, acho que ser inquieta, sem parada, talvez seja apenas instinto. Um artista que fica muito parado pode acabar valorizando detalhes muito provincianos ou bairristas. Talvez ao ampliar o olhar a gente possa entender o valor de outro tipo de detalhe, o do outro. Ficamos mais livres das bobagens e dos egos, tudo ganha uma outra dimensão.
Estes contatos, estas novas pessoas, as experiências, as particularidades, o inesperado bom ou nem tanto de cada produção, os diversos sotaques... tudo isto me incentiva porque não são viagens a eventos ricos onde o cineasta fica numa vitrine de purpurina. Sim, o Cinema na Mochila tem qualidade sempre, infraestrutura e sou muito bem recebida, mas tem gente palpável a nos esperar. Me faz ir aprendendo a ser uma artista mais humilde e sem preconceitos e mais curiosa e a me satisfazer sempre mais com este cinema que não é só do lucro, mas de muitos outros compromissos.
De resto, o final é sempre o mesmo, percebo que os revolucionários, as pessoas que pensam que o mundo tem jeito ainda, os artistas rebeldes que querem mudar seu tempo e incomodar a mesmice dos poderosos regionais ou globais, estas pessoas falam a mesma língua em qualquer lugar onde estejamos. Isto dá muito fôlego e da asas e faz a gente achar as picuinhas locais mera tolice, os medos se vão, o ego fica pequeno, a força aumenta muito. Cada vez que vejo as nuvens pelo lado de cima quando vou pra uma mostra, eu fotografo. Mas vejo que elas são sempre parecidas, como gente é gente e os problemas do cinema nacional são idênticos em todo e qualquer lugar, por isso não dá pra ficar parada.

DC&A - O cinema livre a que você se refere pode ser aquele de uma câmera digital na mão e uma infinidade de idéias na cabeça? E, o que mais?

Biah Werther - Não acho que o cinema livre seja uma camera digital na mão e uma idéia na cabeça. Sequer foi isto exatamente ou apenas isso o que disse o Saraceni com a frase que o Glauber adotou ainda quando as cameras eram a motor. Tinha muito mais na frase, começou pela discussão sobre autoria e veio pro cinema do Brasil. Ocorre que as pessoas não leem mais.
E a camera digital? Se for só isso seria cinema preso né, tiro no pé porque digital é só sistema! A camera deve e pode ser a que for, uma super8itinho ou um celular ou uma HDV ou camera de lata ou uma caneta. Mas bem, cinema livre é cinema independente no que se refere a conteúdo, estética, autoria, honestidade, mercado, conceitos de produção, exibição e distribuiçao, entre outros detalhes que são pessoais porque cada livre vai dizer sobre seu próprio cinema. O cinema livre é livre da disputa sobre a melhor ferramenta e da disputa de poder. E, pra mim, embora muitos discordem,
o cinema livre não tem herói nem líder nem diretoria nem necessidade de palavras de ordem. Se é digital, se é película, se tem verba pública ou de empresário, isto são dados particulares que passam por motivos estéticos ou financeiros, escolhas ou únicas saídas. Mas, de fato, cinema livre é o cinema que não pretende ter o domínio das cabeças como premissa, é cinema corajoso porque não precisa decorar os 7 ou 9 ou sei lá quantos passos pra fazer um filme ser sucesso no multiplex sábado a noite. Se trata do cinema intuitivo, inspirado e audacioso ou não. Pode até ter um olhar métrico e mesmo assim estar atento e crítico sobre nós mesmos, nosso tempo, essa necessidade de poder, os excessos competitivos, superficiais e acomodados. O cinema livre sempre vai trabalhar em rede, em coletivos, mas num panorama que difere dessa politicagem cega que contaminou uma grande parte de nós e até trouxe pra cá gente que não luta pelo cinema mas pelo poder e as facilidades que vem com ele.
No nosso mundo ocidental infantilizado, cheio de medo do adulto que precisamos ser uma hora dessas, a liberdade é a do corpo, então acreditamos que a camera digital na mão seria a expressão da liberdade. Mas a meu ver, a liberdade pode ser o peso da responsabilidade de se ter uma camera na mão. A liberdade de criticar este final infeliz e cordato do planeta, onde a cada nova geração deglutimos mais plácidos a falta de loucura e o arremedo e a preguiça... olhos secos. Ainda, um filme livre pode ser livre apenas porque é independente no que se refere a direitos autorais, tipo 'peguem e levem e interfiram e façamos todos' !! Ou pode ser livre por tudo o que falei acima, ou apenas porque o autor não segue nenhuma formula de roteiro e, mesmo fora de moda assim,
se encontra e encontra seu nicho. Cinema livre é a liberdade do olhar e da língua? Sim. Mas liberdade vai além da camera na mão e pode repensar os festivais que dão um prazo de validade pra voce inscrever seus filmes, ou criticar as meijors e seu ponto de vista mercantilista a matar de fome os cineastas palpáveis e livres.



DC&A - As obras de Andy Warhol e William Burroughs foram ( e é bom deixar bem claro que esse verbo no cinema não existe ) definidas como experiências visuais. Você acredita que "dessa árvore" sobraram frutos aqui no Brasil?

Biah Werther - Bem, eu acho que eles são de um tempo em que não havia 'uma' árvore. Além do mais, os frutos agora são transgênicos...
Então vejamos, Andy Warhol é apenas ele, mas disseste bem, ele É, nunca foi. Em tantos momentos ele é até tomado como ícone 'féxon' e entra nas salas mais brancas como objeto de decoração, mas este ponto de vista é, de todo, mero antagonismo. Falo dessa esquisitisse do homem superficial atual, querendo muito encontrar na plástica pop dos anos 60 algum ícone que se assemelhe à nossa pouca coragem diante do retrato. No entanto as experiências não eram meramente visuais. Não no sentido como entendemos hoje.
O visual tinha muitas especulações, muitas questões, rasgava a pele e havia e o mergulho em tudo aquilo. Dos anos 20 até os 80 por aí tudo foi mais visceral, menos contemplativo do que a modernidade de agora. Mesmo Warhol estando em Niu Iorque naquele tempo imprescindível e sabendo se exibir como ninguém, havia crítica, havia deboche, invasão. E haviam os fantásticos códigos dos anos 60, coisa que não sei se um dia teremos o prazer de reencontrar já que somos meros meninos saídos em série de um aparelho de tv que nossos pais meteram no meio da sala e tá lá pra sempre, agora ainda mais bélico porque tem a concorrência da internet e o jovem engordou e já não vomita mais contra a venda da alma e sim pra ficar elegante e os mais velhos estão em êxtase fazendo muita plástica... Andy Warhol era maluco e era de um tempo em que as ruas inspiravam, fossem as perfumadas, fossem os becos fedidos. Incomodar era preciso. Hoje temos as novas artes filhas daquele tempo, como a grafitagem e tal,
mas a moral dos 'artistas' do nosso tempo é muito elitista e quando alguém retrata as ruas quase sempre tem um tom de menino bem nascido se inspirando nos pobres peixes de aquário. Acho que Wharol via a humanidade no aquário, mas ele nadava ali dentro. Ele fez sua parte, os surrealistas fizeram, os beats também, os sem turma mais ainda. Agora, o Burroughs é outra história, é outro movimento, tá mais pra Henry Miller, eu acho. É mais sanguíneo e dadaísta. Desconstrução! E ao mesmo tempo é monocromático, entende? Mas, por incrível que pareça, talvez fosse menos malicioso do que o Warhol, mais pra dentro ainda, mais 'diferente', batendo mais de frente, se misturando todo. Não tem foto do Bourroughs na sala aquela, toda branca, do escrevedor de blogs féxon. Mas os dois eram do tempo em que a diferença gritava até sair, enquanto agora tudo é modelo.
Mas enfim, não acho que eles ou o Glauber ou o Buñuel ou o Bergman ou o Jean Genet ou a Hilda Hilst devam
ser pais de nada ou de ninguém ou dar frutos pra corar as bochechas das novas e pálidas gerações. Legados são propriedades e a arte não tem nada a ver com isto,
ela é toda de sensações e rasgos muito pessoais e cumpre seu papel ali onde está, naquele instante e lugar. A arte sai de um gênio destes meio escatológica e escreve a história de um minuto pra depois virar briga de família pelos direitos autorais ou peça de museu, ou ser usada como objeto de decoração, ou enriquecer um colecionador, ou um livro a mais no armário ou um filme cult que o tio malucão curtia e te mostrou junto com o primeiro baseado. A impressão do fato é a da hora, depois é imaginário. Portanto, temos que seguir fazendo e rompendo. Tamo vivo!!! Eles tiveram coragem e foram livres, fizeram a sua, plantaram e colheram seus próprios frutos dulces ou podridos. Acreditaram no que vinha de dentro deles próprios e pagaram todos os preços. Mas, no Brasil, ao menos, estas almas inquietas estão bem 'fora de moda' e, pra maioria, são compreendidos como se fossem bustos no meio da praça.
Mesmo assim, creio que ainda existem caras pelo planeta que estão atrás do desconhecido, incomodando, correndo muitos riscos e sem medo dos narizes torcidos ou do desemprego que ronda a vida dos radicais. Redes são pra juntar estas gentes, não pra eleger diretores.


DC&A - O que a Biah Werther gosta de assistir?

Biah Werther - Assisto de tudo porque não sei separar trabalho de diversão.
Claro, preservo minhas mil paixões que são o Fellini, Bergman, o Cronenberg, o Lynch, o Greenaway.. . E vou conhecendo muitos e muitos o tempo todo. Mas como sou curadora acabo conhecendo uns cem ou mais realizadores contemporaneos nossos por ano. Assisto várias centenas curtas anualmente e conheço longas muito cult. Hoje, por exemplo, estou numa curadoria, então neste dia eu gosto de assistir o Máquinas de Rotação Contínua, curta do Alex Lindolfo, de Minduri/MG.
Indico!!! Também tenho observado e exibido a obra do Rô, o Luiz Rosemberg Filho. E assisto Legalmente Loira uma vez por ano, se eu fosse loira seria uma advogada de sucesso.

DC&A - O que se vê hoje no Brasil é que a televisão é que o ocupa o escurinho do cinema. É uma tendência mundial. Ou, é a única linguagem que "nós" realmente entendemos?

Biah Werther - Na verdade, a TV pode ter muitas linguagens. O problema dela não está na linguagem, mas na política, na falácia e no fato de ela, diferente do cinema, entrar na tua casa. O cinema é como um namoro, temos que ir atras, temos que buscar, exercitar. A TV que temos à disposição facilmente e deixamos se irresponsavelmente que se perpetue , é como todo o produto em série do supermercado, tá ali à mão, cada vez mais ao alçance, cada dia mais colorido, sintético, mensagens subliminares, muita maquiagem, tudo aquilo que é tão pouco ...
Mas TV tem muitas linguagens e eu acredito que há possibilidade de um profissional de audiovisual se servir dela para um bom fim, é um direito de todos, até de quem não é da área porque TV é uma propriedade nossa. Falo do serviço!
O problema da TV tá nos políticos, nas concessões à grandes famílias coronelistas. Tá no povo distraído, com os olhos viciados, pouco curioso, apático, com medo de meter pau no que tá falso. Porque não é o nosso retrato no mais das vezes, só que não vemos um grande número de pessoas se perguntando de onde vêm esta fórmula das imagens e porque são aquelas e não outras, mais frescas quem sabe, mais realistas, menos editadas, menos tendenciosas, menos re-pe-ti-ti-vas.
Agora, linguagem é outra coisa, e linguagem tem que ser livre. O problema é que só tem espaço pra quem tem a linguagem medrosa, melindrosa e pra quem tem a linguagem bossalizante, alienante e sexualizante. E pra quem tem a linguagem fácil e agradável é mudérna. Majoritariamente, o que vemos na TV aberta é a língua daquele que tem medo ou é iludido ou ganancioso, então obedece às regras da alienação!! Cadê o corajoso, seja entre o público, seja entre o profissional do audiovisual? Esse tá na outra TV, uma TV sem jabá e diversificada, que ao político e aos monopolistas incomoda porque não dá voto, porque não dá propina, porque teria os mais diversos sotaques e as caras reais, as da rua, muitos mundos. Essa TV é possível? Pelos profissionais e tecnologia que temos à mão, claro que é possível. Mas então o que há? Vê? O problema não é linguagem, é política.


DC&A - As vezes me dá a impressão de que o cinema brasileiro, na ânsia de buscar novos horizontes, navega sempre nos mesmos mares, na síndrome, "eu quero ser mesmo é Glauber Rocha".

Biah Werther - Discordo tanto da tua visão a nosso respeito, quanto do modo simplista de ver o Glauber. Quem quer ser cineasta quer ser ele próprio. Pode ser que uma pessoa jovem queira ser o seu ídolo, mas isto não se aplica a classe de modo geral, claro. Seria coisa de alguém que ainda está se descobrindo, é particular.
Acho que o Brasil tem sim é a ânsia de ligar a TV naqueles canais cheios de preguiça de buscar novos horizontes.
E penso que aquele que tem alguma grana pra ir no cinema está meio um zumbi, de boca aberta comendo mosca, ops! pipoca, no cinema de xópin. Se o Cinema Livre seguir ganhando adeptos, veremos que o cinema do Brasil vai muito além do que vemos na tela da TV Aberta (aberta é paradoxo né? piada de mau gosto) e nas redes escravas das meijors.
É preciso saber mais o que se passa em Brasília e entender que o que se assiste na TV e no cinema é muito decidido por lá. É preciso entender mais de legislação, seja quando se fala do preço do pão ou do desemprego dos professores ou das políticas culturais. Tudo é importante do mesmo modo e grandes empresas manipulam os políticos, não nós.
Mas além de entendermos que TV não é apenas uma novela que cai do céu pra nos divertir depois de um dia cansativo, acho que um caminho é formar cineclubes livres, lutar por TVs Públicas de fato e, claro, conhecer o Cine Desconstrução, rerere. Procura um cineclube bom e sem dono, sem discurso de partido político. Ou cria um cineclube livre, isto é saúde pura! Procura o cineclube mais perto da sua casa e, se eles não tiverem acervo, ajude a montar. E se eles não exibirem filmes não-globais, se meta na programação.
Aí você vai mergulhar e vai ver que o cinema brasileiro é um dos grandes cinemas do planeta, é o futuro, é a liberdade, faz parte da revolução audiovisual.
Estou numa rede que não tem fronteiras, sei do que falo, sei que temos muita gente bacana com a camera na mão :)

DC&A - A RBS, dentro da série Os Escritores, apresentou o espisóio O Louco, de Dionélyo Machado. Cinema puro. É o exemplo de que é possível fazer o caminho inverso?

Biah Werther - Bem, só pode ter sido uma versão do Louco do Cati, né? Cuidado com o louco do Cati!! rerere. Não sei quem me dizia isso quando eu era pequena! Olha, o Dyonélio Machado, o Qorpo Santo, Caio Fernando Abreu... estes caras são indescritíveis e acho bacana adaptarem. Infelizmente quando estou em Porto Alegre, pouco assisto TV porque nem dá tempo... daí quando consigo ligar o aparelho opto pela TVE, pela TVBrasil, Canal Brasil. Claro que assisto Telecines e outros, na real curto televisão mas preciso optar, e TV aberta tem pouca diversidade em todos os sentidos, e a TV a cabo muitas vezes é muito ruim também. Não assisti esta série que citas mas acredito que tenha ficado boa. Só que, entenda, 'cinema puro' só se assiste no cinema!! Porque a TV tem outros paradigmas. Assim como literatura pura é no livro.
Isto que voce chamou de cinema puro se chama 'ficção pra TV Aberta', com os parametros, regras, conceitos, políticas e interesses comerciais da TV Aberta! Adaptações muitas vezes ficam bacanas e acredito que esta ficou linda sim, porque é Dyonélio e porque tem muita gente boa que acaba na tv, já que a nossa profissão é muito difícil no que se refere a sobrevivência. Enfim, se essa série televisiva ficou esteticamente legal eu fico feliz porque vários conhecidos que admiro trabalham nestas ficções pra TV e, com certeza, como não estão podendo fazer cinema pra sobreviver, eles lavam um pouco a alma levando citações estéticas a estas séries. Isto é muito positivo, mas não é cinema puro não, de modo algum!! É TV sim, e não sei porque aqui no RS tantos têm essa necessidade de chamar ficção pra tv de curta-metragem ou de cinema. Qual o problema em assumir que o RS quer chegar às novelas e às minisséries. Que que tem? É trabalho, não é arte, talvez nem sempre esteja para a cultura, mas
é veículo, é mercado, é comercio, é o planeta atual. Porque não admitir? É como quando dizem que publicidade é 'cinema publicitário'. erreer. Mas enfim, se isto fez mais pessoas abrirem um livro, é massa! Se isto deu um salário digno a cineastas que estão deixando o cinema pra fazer TV, bom demais. Se isto fez o público ver algo bem além do que fofoca provinciana e sorrisos montados, mais maravilhoso do que tudo!! Agora, cinema puro? Aí, pra mim, já é invencionisse?

DC&A - Pra você, aí pelo mundo, quem faz um cinema bacana?

Biah Werther - Cinema bacana eu acho que faz quem quer ser livre, quem não tem medo, quem enfrenta, quem não se leva a sério, quem erra pra acertar, quem não pede esmola, quem não segue as fórmulas, quem não faz politicagem, quem não tem sede de poder, quem não vive com uma passagem marcada pra Brasília, quem faz xixi no tapete vermelho, quem não tá de gravata e olho no dinheiro público, quem não quer mostrar a cara na revista bundas... Essas pessoas assim, felizes e livres e da paz, comprometidas e gentis com o planeta. Estes fazem ou vão fazer cinema bacana e estes merecem janelas e portas escancaradas pra mostrarem seu trabalho :)

DC&A - Você busca inspiração em outros cineastas para a realização de suas obras? De que forma?

Bia Werther - Não busco inspiração NUNCA em outros cineastas porque meus primeiros
contatos com cinema foram lendo o Machado de Assis, o Goethe, Kafka, o Garcia Marques, o Henry Miller, Vang Gogh, Sartre, Socrates, Érico Verissímo, até uma biografia do Beethoven ...
Putz! Eu lia muito na infancia e pouco ia ao cinema porque o que tinha era mais Trapalhões sabe. Não tinha tanta coisa como agora, então as visões que eu tenho sempre vêm de dentro de mim, das minhas sensações, das dores, amores, risos, viagens, sustos, lua, sol, suspeições, interpretações, suposições, decepções, ufa! Nunca me inspiro numa tela em movimento entende? Me inspiro em cheiros de livros velhos, em obras de arte em senhoras catando marisco na beira do mar da prainha. Tipo, a arte do Uma foi sendo inspirada em textos da Liv Ullmann misturados com o som de um theremin, fotos, rascunhos do Degas e coisas do porão na infância. Me inspiro em cheiro de gente que eu amo e que me ama, no olhar sinistro de gente que eu amei e me matou, em bichos que eu tenho, em olhares que vejo passando pela rua, situações insólitas, até em entrevistas eu me inspiro! reererere.

DC&A - Que imagens de cinema te emocionam, sempre?


Biah Werther - Humm. Me emocioanam várias. A cena do Zorba, o Grego, quando eles se cruzam e nao se olham. Daí ela, de negro, olha pra tras e ele não está olhando. Depois ele se volta e é ela quem não está olhando. E eles seguem em caminhos opostos... o desencontro dos olhares. Intenso demais, lindo demais. Apaixonante!
Me emociona a imagem da banda tocando embaixo d'água no Undergrond do Kusturica. Um dos planos da Joana Fomm no 'Todas as mulheres do mundo'. Ela deitada, divagando sobre as relações. Tristão e Isolda sabe?
A imagem daqueles olhos da Julieta dos Espíritos e a cabeça do Bebê Santo de Macow sendo exibida ao público na metalinguagem do Greenaway. Tem várias cenas do Amarelo Manga que me emocionam porque eu assisti junto um grande público, lá em Sinop-Mato Grosso, que nunca tinha visto este 'tipo' de cinema nacional, só filmes globais ou oscarizados.
Foi uma emoção coletiva e nunca esqueci, fiquei toda arrepiada durante todo o debate. A abertura muiiito mais que perfeita do 'Era uma vez no Oeste'. E aquela cena, acho que do 'Por um punhado de dólares', numa casa sem cores ou angulos, tipo a Casa Pueblo sabe, a silueta dele aparece no umbral, ela olha. Minutos infindáááveis de silêncio, só olhares, bigui closesss. Ou seja, cada take das cenas de tensão do mestre Sergio Leone (isto sim é cinema puro e saber usar a ferramenta!), com as trilhas do Morricone. Cada plano, a foto perfeita, a direção de atores, o brilho... O ET quando de repente ele para de ser feio e tu olha pra tela e ele tá fofo !! Fiquei um tempo naquela época, eu menina, pensando em que momento ele ficou bonitinho e passei a nao ter um certo medo dele? erererere.
Curto a cena do anjinho na demolição no meu primeiro curta, e a cena vermelha dos seios a mostra da personagem loira e perua em outro filme meu... Amo meu cinema quando fica assim emocional ou dramático ou errado. Porque essa sou eu, então esse é meu cinema. Me emociono em quase todas as cenas do Uma e do Borboletas e em cada frame das minhas pinturas na película.

DC&A - O cinema é um sonho, um delíro. Uma febre que não pode baixar, senão, arte se conforma, se adapta, se molda, morre.. É isso?

Biah Werther - Ah, tu o dizes! rerere. Eu to muito envolvida pra saber o que é. Pra mim é minha profissão e minha diversão, minha úmidade, minha secura, minha juventude e minha velhice. É o meu ar e o vento.